[Off-Topic] Impressão 3D, a lenda?
Publicado pela 1a vez em 2014-10-07T17:39:50+00:00

Se você andou viajando por Júpiter nos últimos anos, talvez não tenha ouvido falar de uma vertente de produção que já causou muita controvérsia e já se firmou como viável: a impressão 3D doméstica. A impressão 3D, ou produção por adição de material em vez da produção por remoção que usamos hoje, existe há uns 30 anos. Mas o mercado ficava nas mãos de gigantes como a 3D Systems e a Stratasys, e só para impressoras industriais que passavam dos 100 mil dólares. Elas eram a IBM dos anos 70.
E assim como na revolução dos desktops que Microsoft, Compaq, Apple e Dell ajudaram a fundar, agora é a vez de startups como a MakerBot e a Form Labs entrarem em cena. A Form Labs foi um dos projetos de maior sucesso da sua categoria no Kickstarter. Elas trazem as impressoras 3D domésticas, abaixo dos 2 mil dólares, acessíveis não só a hobistas como ao consumidor comum no futuro.
“Mas impressão 3D é só para nerds.” Assim também soava a ideia de um “computador pessoal em cada casa” no fim dos anos 70. Essa é a premissa do documentário “Print the Legend”, produzido e lançado pela Netflix no dia 26 de setembro de 2014.
Devo admitir que me deixa um pouco nervoso a “revolução 3D” já ganhar um documentário sem ter atingido o patamar que um Apple II tinha em meados dos anos 80. Por outro lado, o filme não se propõe a explicar o processo de manufatura nem as várias técnicas de impressão 3D, laser e afins. Ele explora o que acontece quando o idealismo da startup de garagem vira realidade e chega ao nível de uma Apple do começo dos anos 80.
A confusão fica óbvia nas entrevistas com ex-funcionários da MakerBot, sobre como agora odeiam o CEO e co-fundador, Bre Pettis. A visão original de garagem, de uma empresa voltada a código aberto e hardware aberto, de repente recebe investimento e alavancagem dos típicos Brad Felds. E a empresa começa a inchar de uma garagem de 12 pessoas para uma corporação de 200, 600 e mais gente.
Amigos viram inimigos (aliás, amigos sempre viram os piores inimigos), pessoas saem desiludidas, traumatizadas, decepcionadas, e crueldade e autoritarismo viram rotina. Pelo menos é o que os que saíram sempre vão dizer.
Quanto disso é verdade? Nunca vamos saber. A verdade sempre tem três versões: a que eu conto, a que você conta e a que realmente aconteceu.
Pessoas começam startups, em geral, para serem o anti-sistema, os rebeldes, os que não se encaixam, os que querem fazer diferente e mudar o jogo. Chega a ser “fofo” esse nível de idealismo ingênuo, e ele é necessário: se você não acredita que a coisa pode acontecer, ela não acontece mesmo. Pensar assim é um requisito, até certo ponto.
Chamo de “ingênuo” por um motivo. Nos raríssimos casos como o da MakerBot (e talvez no futuro o da Form Labs, que trilha o mesmo caminho depois de receber seu gordo Series A), quando você é bem sucedido de verdade em mudar o sistema e virar o jogo, a partir daquele momento você vira o novo sistema, o novo jogo, o novo alvo. Agora é você o sistema a ser combatido e derrubado.
A Apple era o contramovimento à IBM nos anos 80. Deu tão certo que ela mesma virou o novo sistema. Nos anos 90 a gente achava que a Microsoft seria a sucessora da IBM, mas no século XXI descobrimos que quem assumiu esse papel foi a Apple.
Cabe a uma nova startup de garagem começar outro jogo do zero. A parte mais interessante de “Print the Legend” é justamente mostrar esse drama, do começo até agora, de uma startup que percorre essa maldição. Como Bre Pettis passou de líder de uma comunidade aberta de makers a “traidor” do movimento, e como a pequena MakerBot chegou ao sucesso: foi comprada pela Stratasys, a segunda maior desse mercado, e com isso conseguiu crescer o negócio.
Sem dar muito spoiler, lá pelo fim alguém comenta que fundadores, empreendedores e CEOs de sucesso sempre falam do “sacrifício” que foi chegar aonde chegaram. A maioria imagina que sacrifício é trabalhar longas horas, ficar longe da família por longos períodos ou aguentar as complicações do processo.
Mas o sacrifício a que eles talvez se refiram é outro: quebrar a própria identidade, trair os próprios princípios e cruzar as linhas que jurou que nunca cruzaria. E os raros grandes casos de sucesso, as Microsofts, as Apples, as IBMs e agora talvez as Stratasys, exigem que isso aconteça.
O ciclo vai recomeçar. Em breve uma nova startup rebelde de garagem desponta, joga o mesmo jogo e, logo depois, vira o novo sistema a ser batido. Esse é o ciclo das startups de sucesso, e são exatamente essas as regras do jogo do grande “sucesso”.
Foto de abertura: fb.com/printthelegend