[Off-Topic] Lean está Morto, longa vida à Eficiência
Atualização (29/03/14): Publiquei um post em outubro de 2013 que traz argumentos bem mais detalhados sobre este tema. Leia “Matemática, Trolls, Haters e Discussões de Internet”.
O ano era 2001. Um grupo de programadores sêniores se reuniu numa estação de esqui em Snowbird, Utah. Estavam ali os principais nomes da programação nos Estados Unidos: Kent Beck, Alistair Cockburn, Ward Cunningham, Martin Fowler, Jim Highsmith, Ron Jeffries, Brian Marick, Bob Martin, Ken Schwaber, Jeff Sutherland, Andy Hunt, Dave Thomas, Mike Beedle, Arie van Bennekum, James Grenning, Jon Kern, Steve Mellor. Uma lista de “quem é quem” da área.
Desse encontro histórico surgiu um manifesto de 4 valores e 12 princípios, que ficou conhecido como o “Manifesto Ágil”.
Treze anos depois, Dave Thomas, autor de “The Pragmatic Programmer” e um dos que mais se envolveram na redação do texto do manifesto, publicou um artigo de desabafo chamado “Agile is Dead, Long Live Agility”.

A intenção dos agilistas originais era quebrar a forma antiquada de pensar e executar engenharia de software, o mesmo modelo obsoleto que ainda é ensinado hoje na maioria das universidades do país. Isso causou um enorme furor na indústria.
Vieram as derivações, os treinamentos, as ferramentas, as certificações, as conferências, as consultorias. Um portfólio imenso de opções, para qualquer tamanho e a qualquer preço. No meio de todo esse circo, esqueceu-se o que é de fato ser um agilista.
E, como Dave Thomas resumiu bem no seu desabafo, você não “faz” Ágil nem “compra” Ágil. Agilidade é uma qualidade, um adjetivo. Para ser ágil, é preciso voltar aos princípios. Citando:
- Descubra onde você está.
- Ande um pequeno passo em direção ao seu objetivo.
- Ajuste seu entendimento baseado no que aprendeu.
- Repita
Como fazer isso:
“Quando se deparar com duas ou mais alternativas que entregam mais ou menos o mesmo valor, escolha o caminho que facilite modificações futuras.”
E é só isso: quatro linhas e uma prática.
Treze anos depois que algo tão simples foi publicado pela primeira vez, o mundo parece ter ficado complicado demais. Scrum, Kanban, Scrumban, Lean Programming, Lean Six Sigma, Agile PMI. Num momento em que o caos reina, quem “parece” saber explicar o caos vira guru.
E aí surgem as associações, as certificações, os treinamentos, as conferências. Funciona assim para dietas, funciona assim para terapias, funcionou assim para engenharia de software. É isso que Dave Thomas lamenta.
Mas é um resultado inevitável. As pessoas são fáceis de enganar: procuram sempre alguém ou alguma coisa para seguir e raramente questionam. Foram dogmatizadas a nunca contestar a autoridade e a torcer para times de futebol sem nenhum critério.
Em 2010 estive numa conferência em Baltimore e tive a chance de conversar com Bob Martin, que organizou o encontro em Snowbird. Foi no escritório da Object Mentor dele que aconteceu o primeiro treinamento de certificação Scrum do Ken Schwaber.
Eu já era imune ao “Agile Hype”, mas queria dizer ao Bob Martin o que achava daquilo. Para quem não sabe, o treinamento “oficial” de Scrum Master é um curso de dois dias, e no fim você sai certificado. Nem precisa comparecer: basta pagar pelo curso.
Eu disse a ele, cinicamente, que a ideia do Ken provavelmente saiu pela culatra. “Provavelmente o Ken pensou ‘puxa, como convencer essas grandes corporações a adotar práticas ágeis?’ e aí ele pensou ‘claro, empresas grandes gostam de certificações’, e então criou um Cavalo de Tróia, um curso-piada de 2 dias onde pessoas sérias saberiam que não dá para aprender nada sério em 2 dias mas aí ele poderia inserir a ideia nas empresas. Porém todo mundo levou isso a sério, e é aí que o tiro saiu pela culatra.” Pule direto para o minuto 6:24 do vídeo abaixo se quiser ouvir essa história.
Aprendendo a Aprender
Agora vamos sair um pouco de software e entrar no mundo das “startups”. Esse mundo tem o seu próprio “Agile”, batizado de “Lean Startup”. Eric Ries cunhou o termo em 2008 e o popularizou com o livro de mesmo nome, de 2011, derivado direto dos princípios de Lean da Toyota. É uma reembalagem de ideias antigas.
Esse Lean vem das mesmas ideias de W. Edwards Deming sobre PDCA, “Plan, Do, Check, Act”, ou “Planejar, Fazer, Checar, Agir”. Você vai notar a semelhança com os quatro princípios de Dave Thomas que citei acima.
Não importam nomes pomposos, celebridades, gurus, ferramentas caras nem cargos de destaque. Os princípios básicos de Agile e Lean são os mesmos: entregar valor o mais rápido possível com o menor desperdício possível, aprendendo e usando esse aprendizado no processo, planejando e replanejando para atingir objetivos que ficam mais claros ao longo do caminho. É só isso.
O maior problema aparece quando um programador amador se pergunta “qual o próximo passo?” e a resposta é “o objetivo é montar um Kanban.” Ou quando um empreendedor amador se pergunta “qual o próximo passo?” e a resposta é “o objetivo é montar um Business Canvas.”
Kanban e Business Canvas não são objetivos, são meios. Se esses meios não ajudam a atingir os fins, entregar valor ao cliente e ter lucro no seu empreendimento, então são descartáveis. O objetivo é ter lucro. MVP, protótipo, Lean UX e Business Canvas são apenas caminhos possíveis para chegar lá. Quais deles servem?
Se você quer aprender qualquer coisa, os passos para começar são simples:
- Não crie ídolos, nunca “idolize” ninguém, pelo menos não a sério.
- Ignore quase tudo o que você vê ou ouve em grupos. Faça anotações, mas não leve tudo a sério.
- Ignore conselhos e mentorias. É como um gerente de banco dando dica de investimento: se ele fosse bom de verdade, estaria rico em vez de vender conselho. É vendedor com outro nome.
- Tudo, absolutamente tudo, começa com poucos princípios. Ninguém vira cirurgião cardíaco querendo cortar a aorta antes de aprender a lavar as mãos. Procure os princípios e ignore os títulos pomposos.
- Assuma que sabe pouco, sempre. Encare cada assunto com os olhos de um ignorante. Quem acha que já sabe tudo não aprende mais nada. Mas seja um ignorante esperto, não um ignorante idiota.
Aprenda a questionar. Todo o mundo das Ciências, do mundo quântico absolutamente pequeno até o mundo cosmológico infinito e imenso, só existe porque aceita um único princípio: o Método Científico.
Ele é basicamente o PDCA: defina o problema, faça hipóteses, faça experimentos controlados, descarte as hipóteses provadas erradas, repita. Sendo mais exato, o PDCA de Deming é que se inspira diretamente no Método Científico.
Aí está o princípio de tudo. De Agile a Lean a PDCA, voltamos a Karl Popper e à sua filosofia do “Racionalismo Crítico”, que ensina que tudo deve estar aberto à crítica racional.
É por isso que o Lean, enquanto guarda-chuva para vender produtos e serviços de que você não precisa, está morto. Longa vida ao princípio de alcançar valor evitando desperdício com aprendizado contínuo, ou seja, Eficiência. Não existem fórmulas mágicas. Se as dietas mágicas funcionassem, não existiria obesidade no mundo.

PS: Eu sei, tem #tongueincheek no título e no artigo, mas a intenção, pra variar, é dar uma provocada mesmo ;-)