[Off-Topic] O dilema da Nova Geração: empreender ou arranjar um emprego?
Publicado pela 1a vez em 2014-02-20T09:00:09+00:00
Recentemente um artigo num blog gerou algum burburinho. Intitulado Eu queria tanto trabalhar na Apple, agora nem tanto, é um desabafo do próprio autor. O resumo é simples: na opinião dele, o chefe tratava mal a ele e à equipe, ao ponto de largar tudo e ir embora.
As discussões mais genéricas foram na linha de que a Apple deve ser mesmo um lugar horrível de trabalhar, e que a cúpula ainda pratica o lendário “estilo Steve Jobs” de chutar as pessoas para arrancar resultado. Alguns chegaram a dizer que “a única saída é empreender, seguir os próprios sonhos sem um chefe desses pisando em você”.
E é esse o ponto do artigo. Com o frenesi atual em torno de startups, essa é uma atitude que vejo com frequência cada vez maior.
Deixe eu colocar em perspectiva a reclamação comum sobre chefes. Nenhum chefe que você já encontrou, mesmo o pior dos piores, chega perto de Henry Clay Frick, responsável pelas operações das siderúrgicas do lendário Andrew Carnegie. As condições de trabalho no fim do século XIX eram péssimas, e talvez nem as piores condições de hoje se comparem ao pior daquela época.
Vários dos grandes magnatas industriais do período, incluindo Carnegie, Rockefeller, Vanderbilt e muitos outros, exploravam os trabalhadores até o limite da miséria. Um exemplo de até onde isso ia foi a famosa Greve de Homestead. O resultado? Sete trabalhadores mortos e onze feridos.
Acredite, você não ia querer alguém como Frick de chefe.
Esse foi um exemplo extremo, e não quer dizer que não existam chefes ruins hoje. Vou restringir o contexto ao mundo das tech startups do qual fazemos parte, sem falar de serviço público, forças armadas ou outras áreas fora desse recorte.
A grande diferença entre hoje e a época de Carnegie é que hoje existem opções. Antigamente, ou você aguentava péssimas condições e péssimos salários, ou vivia na miséria sem emprego nenhum. Hoje qualquer bom profissional tem muitas alternativas. Gente entra e sai de empresa centenas de vezes por dia, em centenas de empresas, e basta ver a proliferação de sites de emprego e recrutamento para confirmar.

Se você é estudante ou recém-formado, entenda uma verdade dura: você é igual às centenas de pessoas que se formaram junto com você e entram no mercado todos os dias. O primeiro emprego é sempre difícil. E não só o primeiro: o segundo, o terceiro e talvez os seguintes também. O que você “acha” que é capaz de fazer não vale nada até ter uma sequência de resultados concretos para provar. É o que chamamos de currículo.
Já ouvi muito jovem dizer coisas como “preciso mudar de emprego, não estou aprendendo mais nada aqui”. Se você está na mesma empresa há dez anos, provavelmente já passou da hora. No primeiro ou segundo ano, é bobagem. A empresa tem muito a ensinar; o problema é você não querer aprender.
Um programador, por exemplo, não tem “programar” como única atribuição. Em agosto de 2013 escrevi que a coisa mais difícil para um Engenheiro de Software é entender que problemas de software muitas vezes não têm solução em software. Aprender a negociar, se comunicar de forma que os outros entendam, gerenciar expectativas, trabalhar em equipe, convencer os outros de que suas ideias são boas: tudo isso faz parte do trabalho.
Ou seja, muita coisa que não tem nada a ver com código. E isso vale para qualquer profissão, seja você designer, escritor, cozinheiro ou piloto de corrida. Todos precisam aprender e praticar essas habilidades para crescer.
Existem algumas frases-feitas repetidas a esmo, como “não vale a pena viver o sonho dos outros sendo funcionário de uma empresa”. Se o pensamento é esse, melhor pedir demissão mesmo. Uma empresa não é caridade: ela existe para ter lucro, não para ser babá de funcionário. E, a menos que seja uma organização sem fins lucrativos, nenhum funcionário está ali como voluntário não remunerado.
Entre empresa e funcionário existe um contrato de trabalho. Os dois concordaram com os termos. Se você não concorda, não aceite; se aceitou, cumpra; se acha que a situação mudou, renegocie. Renegociar é uma opção, e a empresa pode recusar. Se você não está satisfeito, peça demissão, cumpra os termos até o fim e saia como qualquer bom profissional. Abandonar o posto, como no relato do blog, é quebra unilateral de contrato. Está errado.
Você tem vários motivos para estar num emprego. Tem o salário para pagar as contas no fim do mês, presumindo que você já criou vergonha na cara e parou de parasitar o papai e a mamãe. E tem o aprendizado: você é pago não só para cumprir suas responsabilidades, mas para explorar tudo que as empresas estabelecidas já aprenderam e que você absorve “de graça”. Cada crítica que recebe, cada reclamação, é uma chance de melhorar algo que você nem sabia que faltava. “No pain, no gain.”
O próprio fato de você ter dificuldade de achar outra empresa que o contrate já mostra que ainda faltam competências. Outra frase comum é “eu faria mais, mas ninguém me dá uma chance (ou me paga mais)”. Se você já se pegou dizendo isso, ainda tem muito a aprender. E, mesmo para empreender, essa é a lição mais básica: ninguém dá nada de graça, tudo é troca voluntária para benefício mútuo. Sem benefício, não tem negócio.
E eu digo qual é o pior lugar do mundo para aprender tudo isso: a sua própria primeira empresa. O resultado mais comum de alguém totalmente inexperiente decidir abrir a própria empresa? Virar exatamente o tipo de chefe descrito pelo autor do blog que trabalhou na Apple.
PS: existem diversas formas do autor do blog ter resolvido seu problema interno. Uma empresa do tamanho da Apple, com mais de 80 mil funcionários, certamente tem vários caminhos para resolver um problema desses. Não saber encontrá-los só demonstra que ainda falta muito a aprender. Afinal, quem tem boca vai a Roma.