A Língua Portuguesa-Brasileira Pode Nos Confundir: Standard vs Pattern

10 de maio de 2013 · 💬 Participe da Discussão
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Original de 27/4/2011: Gestão 2.0

Meu último artigo de tradução, sobre “Padrões: Excelência vs. Mediocridade”, rendeu uma discussão paralela interessante especificamente sobre “Design Patterns”.

Para quem não é de programação: nos anos 70 surgiu o termo “Design Pattern”, reforçado nos anos 90 pelo “livro do Gang of Four”. Segundo a Wikipedia, em engenharia de software um “design pattern” é uma solução reusável geral para um problema que ocorre comumente em design de software. Um design pattern não é um design fechado e acabado que pode ser transformado diretamente em código. É uma descrição ou template para como resolver um problema que pode ser usado em muitas situações diferentes.

Para nós, no Brasil, existe um enorme problema, e a ficha só me caiu por causa da discussão nos comentários daquele artigo. A reclamação foi que traduzi “Design Patterns Standards” como “Padrões de Design”. O Ronald, autor da crítica, levantou um ponto correto: as palavras em inglês “default”, “standard” e “pattern” traduzem todas para a mesma palavra “padrão” em português.

Mas as 3 palavras têm significados muito diferentes:

Default – uma opção pré-selecionada adotada por um programa de computador ou outro mecanismo quando nenhuma outra alternativa é especificada pelo usuário ou programador. Exemplo: o “default” é 50 linhas

Pattern – 1) um design decorativo repetitivo (como em “patterns” de cor numa roupa). Um arranjo ou sequência regular em objetos comparáveis ou eventos. Uma forma regular e inteligível ou sequência discernível em certas ações ou situações. 2) um modelo ou design usado como um guia em bordado ou outras atividades artesanais.

Standard – 1) um nível de qualidade ou realização. Um nível requerido ou concordado de qualidade ou realização. 2) uma ideia ou coisa usada como medida, norma, ou modelo em avaliações comparativas. Princípios de conduta informado por noções de honra e decência. Uma forma de linguagem que é amplamente reconhecida como a forma correta.

Resumindo:

Default – uma escolha pré-selecionada quando nenhuma outra é selecionada.

Pattern – um modelo que pode ser observado como recorrente, sem valor de certo ou errado.

Standard – uma norma, algo que todos concordam como base de comparação ou requerimentos mínimos a serem seguidos.

O problema é que a palavra “padrão”, em português, é usada muito mais com o sentido de “standard”. E muitas vezes o que estamos traduzindo é a palavra “pattern”.

Ou seja, quando alguém fala “Design Pattern”, diz apenas que existe uma “forma” usada com mais frequência do que outras na resolução de problemas de software. Ela não é necessariamente a mais correta, e não existe afirmação de que seja a forma conclusiva. É só a observação de que ela é frequente, regularmente usada. A imagem a seguir mostra padrões no sentido de “patterns” (“mais patterns”):

Pattern

Mas ao traduzir para “Padrões de Design”, entra o sentido português de “padrão” como a forma mais correta, ou minimamente correta, e que por ser uma “norma” deveria ser seguida. A palavra “padrão” soa como em “obrigação de seguir o padrão Portaria nº 288/2005”, ou seja, “obrigação de seguir a norma ou regulamento Portaria nº 288/2005”.

Aí “Design Patterns” ganha conotação de norma ou regulamento, que é exatamente o sentido errado. Pattern é Pattern, Standard é Standard, são coisas completamente diferentes.

E é aí que mora o problema de entendimento entre muita gente. Quem entendeu Design Patterns no sentido de “Pattern” reclama de quem entendeu no sentido de “Standard”. Os dois traduzem como “padrão”, e a discussão entre essas duas pessoas acaba parecendo conversa de louco: “Mas isso é só um padrão (pattern), não precisa ser seguido obrigatoriamente.”“Não! Isso é um padrão (standard), por isso precisa ser seguido obrigatoriamente!”

Observação: notei que algumas pessoas não gostaram muito do título, mas coloquei assim de propósito, para chamar atenção ao assunto. Não estou afirmando que a língua portuguesa é essencialmente ruim e que outras são melhores. Toda língua tem nuances e diferenças que dependem do contexto, da cultura local, dos coloquialismos, dos neologismos, da moda e assim por diante.

Justamente por isso temos que ficar sempre atentos, para não entender as coisas ao pé da letra e aplicá-las sem pensar, partindo de premissas falsas.