[Off-Topic] Restrições são libertadoras: menos é mais
Publicado pela 1a vez em 2013-04-01T09:19:10+00:00
O título deste artigo é uma frase repetida inúmeras vezes, mas de tempos em tempos vale recuperar seu significado, especialmente neste novo momento de excitação em torno de startups.
Muita gente acredita que poderia realizar muito, mas se convence de que as inúmeras restrições ao redor a condenam ao fracasso. Se tivesse “mais” dinheiro, “mais” tempo, “mais” reconhecimento, “mais” alguma coisa, só então realizaria seu “potencial escondido”. O fracasso passa a ser culpa do mercado, da sociedade e de tudo que limita esse potencial.
Por isso existe um enorme rebanho de pessoas que gostariam de ser “empreendedores” e gastam o tempo criando “sales pitches” para seduzir fundos de investimento, investidores anjos ou qualquer um com recursos para lhe dar esse “mais”.
E não falo só de quem quer empreender, mas de qualquer profissional. Estão todos convencidos de que, se a empresa lhe pagasse “mais”, ele se sentiria motivado a produzir mais. Se o projeto tivesse “mais” tempo, ele entregaria dentro do prazo. Se tivesse “mais” liberdade, entregaria melhor.
Em resumo: “Se me dessem mais, eu faria mais, afinal liberdade é ter todas as escolhas possíveis”.
Quero argumentar que o oposto é a verdade. Até certo limite, são as restrições que levam à inovação, e não a abundância. A abundância leva à zona de conforto, e não existe motivação para tomar qualquer ação quando você já está confortável.
- Por que alguém inventaria maneiras mais eficientes quando se tem tempo infinito?
- Por que alguém inventaria maneiras mais baratas quando se tem dinheiro infinito?
- Para quê ter criatividade para inovar quando não existe essa necessidade?
A resposta é simples. Abundância significa ausência da necessidade de fazer escolhas, e quem não precisa escolher também não precisa priorizar. A priorização é consequência de se viver sob restrições.
Quando algo “não é possível” dentro dessas restrições pelas “formas convencionais”, é aí que alguém se vê forçado a ser criativo, a abandonar o caminho batido e produzir a real “inovação”. Inovar é o que torna o impossível de hoje possível amanhã.
- “É impossível atravessar o mundo em 24 horas”. Seria, antes do século XX, quando a forma mais eficiente de transporte era o navio.
- “É impossível continuar alimentando todas as pessoas do planeta”. Seria, se não tivéssemos avanços de agricultura e genética que permitem extrair o máximo de cada área cultivável.
- “É impossível ir até a Lua”. Acho que vocês entenderam.
Quando você tem zero reais no bolso e nenhum lugar para captar dinheiro, reclamar do mundo injusto não muda nada. A saída vem por outros caminhos, com as próprias pernas. Você vai ter que convencer parceiros, priorizar, negociar, barganhar, tomar escolhas difíceis. É assim que a restrição libera e força a criatividade a inovar em outras direções.
Se ainda não acredita vamos a alguns extremos:
- Toda a riquíssima literatura ocidental dos últimos séculos é descrita com uma combinação de 26 letras e 10 números do alfabeto. Shakespeare não seria melhor necessariamente se existissem mais letras no alfabeto.
- Toda a infinidade de números podem ser expressados com meros 10 símbolos numéricos. Paul Erdős não faria matemática melhor com mais formas de notação numérica.
- Toda a diversidade dos seres vivos que existem hoje, já existiram e ainda estão por vir pode ser resumida na informação do DNA, codificada com apenas 4 bases, adenina, citosina, guanina e timina. 1% de diferença nesse DNA é o suficiente para criar espécies tão diferentes quanto o macaco e nós.
Claro, um tweet tem apenas 140 caracteres. É uma restrição que se levarmos a sério nos leva a ser concisos e dizer o absolutamente necessário que cabe nesse pequeno espaço, e muitos conseguem criar memes inteiros nesse espaço. Não é diferente de um Haiku, uma forma literária de 17 sílabas ou menos para também capturar o essencial no momento.
Em design falamos o tempo todo de minimalismo, de que “menos é mais”, onde os exemplos de excelência vêm dos reconhecidos designs industriais de Jony Ive na Apple.
Ainda em design, outro nome reconhecido, John Maeda, diz que “na área de design existe a crença de que com mais restrições, soluções melhores são reveladas” e que “urgência e espírito criativo andam de mãos dadas.”
No mundo das apresentações, palestras e slides temos o famoso “Presentation Zen” de Garr Reynolds. Ele ensina a limitar as ideias ao mínimo possível, até chegar à menor narrativa e a slides simples que, no limite, se restringem a uma única imagem ou uma única palavra por slide. Lembram das apresentações de Steve Jobs? Mesmo conceito. A abundância leva aos horríveis Powerpoints poluídos de informação que, paradoxalmente, transmitem pouco.
Ou o que dá para fazer a partir de meros dois dígitos, zero e um? Um sistema binário que é o DNA por trás de todo o mundo digital e da Internet que conecta bilhões de pessoas.
Podemos extrapolar em muitos outros exemplos, mas o ponto central é que buscar abundância com o pretexto de finalmente executar suas ideias é uma busca sem sentido. As soluções aparecem nas limitações. Quem souber encarar as restrições ao redor procurando saídas criativas é quem inova primeiro, de verdade.
Você acha que precisa de “mais” para fazer “mais”? Minha conclusão é que se com pouco não se faz nada, com muito vai se fazer menos ainda.
Inovar é a arte de priorizar e ser criativo, motivado pelas constantes restrições.