[Jornada ao Japão #1] Explorando a Cidade de Tóquio
Este é o primeiro artigo de uma série que vai usar a viagem ao RubyKaigi no Japão como pano de fundo — e uma espécie de pretexto — para algo completamente diferente que pretendo tentar, ainda que não tenha certeza se vou conseguir.
Se você não me conhece, meu nome é Fabio Makoto Akita. Fabio é meu nome de batismo brasileiro. Makoto é meu nome japonês (que funciona como nome do meio no mundo ocidental) e Akita é meu sobrenome. Sou nikkei de terceira geração, nascido e criado no Brasil. Muita gente no Japão me perguntou sobre isso, daí a explicação.
O Brasil é um País Emergente e em Desenvolvimento, ex-Terceiro Mundo. Alguns acham que a cultura brasileira é muito parecida com a americana, por serem do mesmo mundo ocidental e terem raízes europeias em comum. E que o Japão tem uma cultura muito diferente das duas, por ser do Extremo Oriente, do Oriente.
Ruby é um dos poucos projetos open source que conheço com uma comunidade americana forte e, ao mesmo tempo, uma comunidade japonesa igualmente forte.
(TL;DR) Aviso

Fui criado com uma base japonesa muito forte, mas ao mesmo tempo fortemente influenciado pela cultura brasileira que cerca minha família. Me formei num país que consome e incorpora vários aspectos da cultura americana, embora quase nada de suas filosofias internas.
Por isso estou na posição privilegiada de ter sido criado em duas culturas — ocidental e oriental — ao mesmo tempo. Em geral isso não é grande coisa para a maioria, nem mesmo para outros nikkeis criados fora do Japão. Mas pelo menos para mim, significa que não tomo nada como garantido. Explicar isso vai ser um desafio, então assuma que tomar decisões é mais difícil para pessoas como eu.
Não sou profissional na área de Antropologia Social. Às vezes vou precisar recorrer a um Reductionism exagerado. Leia tudo com um grão de sal. Não vou afirmar “verdades absolutas”, apenas conclusões e explicações baseadas em diferentes pontos de vista que não são nem bons nem ruins — só diferentes. Tente resistir à tentação de pensar em “certo” e “errado” e em vez disso tente compreender o assunto.
O que estou pedindo não é trivial. Não tome nada como garantido e assuma que você está sempre enxergando tudo pelo filtro da sua própria cultura. Isso inevitavelmente carrega preconceitos que levam a conclusões tendenciosas, alguns deles chamados de senso comum. Assume também que eu entendo os efeitos colaterais de ferramentas como reductionism, empirismo e especulação pura. Vou assumir leitores inteligentes.
O desafio desta série e o objetivo que persigo é escrever de forma que brasileiros, norte-americanos e japoneses possam entender, partindo do pressuposto de que cada um tem sua própria cultura excepcional.
(TL;DR) A Decisão de Partir
Como japonês, dá pra imaginar o peso pessoal de visitar o país de origem da minha família pela primeira vez. Ao mesmo tempo, sou do tipo que só curte viajar quando há um propósito claro a cumprir.

Segurei meu desejo de visitar o Japão até ter um motivo. Lá em 2007, eu ainda não tinha. Poderia ir lá e falar pras pessoas que “pretendo contribuir no futuro para ajudar a comunidade Ruby brasileira.”
Quem liga, né? O caminho para o inferno é pavimentado de boas intenções. Resultados sempre vão sobrepor qualquer boa intenção. Eu sabia que levaria alguns anos, mas tudo que vale a pena leva tempo.
Quatro anos se passaram desde que decidi me tornar um evangelista Ruby, e finalmente tinha algo a compartilhar — então decidi que era hora. Mas 2011 foi um ano muito pesado em volume de trabalho, no bom sentido. Por isso só comecei a me preparar para o RubyKaigi lá pro final de junho. Mandei um e-mail casual no dia 22 de junho para o maior evangelista Rails do Japão, Akira Matsuda, dizendo que talvez fosse.
Isso desencadeou uma troca com ele e com o maior evangelista Ruby do Japão, Shintaro Kakutani, dizendo que um dos palestrantes internacionais não poderia ir, e haveria um slot de 30 minutos disponível numa das trilhas paralelas. Foi assim que acabei como palestrante! É um bom exemplo de Serendipity.
Nessa época eu estava enterrado em trabalho, então o processo de visto teve que esperar (sim, brasileiros precisam de visto em vários países). Meu voo estava marcado para 12 de julho, terça-feira, e só consegui ir ao Consulado Japonês no dia 4 de julho. Se algo desse errado, não teria mais como tentar de novo. O consulado só atendia às segundas, quartas e sextas, das 9h às 11h. Para deixar as coisas ainda mais emocionantes, estava esperando ansiosamente no consulado no dia 4 e o último documento necessário me foi entregue às 10h55, na última hora! Mas eu me desviei do assunto.
Ir ao RubyKaigi pela primeira vez, visitar o Japão pela primeira vez e ainda conseguir falar com a comunidade japonesa pareceu o encerramento perfeito da minha jornada pessoal. Foi longa e muito difícil, mas valeu demais.
Pedido de Desculpas
Quatro anos desde que decidi evangelizar Ruby, eu sabia sobre o que queria falar. A palestra se chamava Personal Dilemma: How to work with Ruby in Brazil?, e seria no dia 18 de julho. A gravação em vídeo da minha sessão já estava disponível (graças à equipe eficiente do RubyKaigi). Dê uma olhada e mande feedback, sempre ajuda.
Teve um erro na introdução da minha palestra, quando falo em japonês. Quis dizer “Gostaria de agradecer a Yukihiro Matsumoto e o Ruby Core, mesmo que talvez não estejam aqui”, mas acabei dizendo "… mesmo que talvez não seja necessário." Como assim!? Errei ao dizer “iranai” em vez de “irarenai” ou simplesmente “inai” — peço desculpas por isso. Espero que quem entende japonês tenha percebido pelo contexto que foi um erro.

Um Brasileiro-Japonês Encontra o Japão
Antes das discussões filosóficas e culturais mais pesadas que quero tentar, deixa eu começar de forma leve com um relato simples da minha primeira visita ao Japão.
Viajei para o Japão no dia 12 de julho. Como o Japão está 12 horas à frente do Brasil e o tempo total de viagem seria mais de 28 horas (11h30 de São Paulo até Frankfurt; 6 horas de espera em Frankfurt; e mais 11 horas até Narita, no Japão), só chegaria no dia 14 de julho.
A coincidência é que meu aniversário foi no dia 13 de julho, que passei basicamente no aeroporto de Frankfurt. Acho que a essa altura todo mundo já entendeu que estava recebendo um presente de aniversário e tanto. Sem nenhuma reclamação — e de bônus ainda, o voo de Frankfurt para Narita estava praticamente vazio e eu era o único passageiro na minha fileira! Fiquei com os 3 assentos só pra mim. Muita sorte, adorei.
Cheguei ao Aeroporto Internacional de Narita às 15h do dia 14 de julho. É inverno aqui no Brasil, mas verão no Japão, e era um dia lindo, quente e ensolarado em Narita. Sou do tipo que nunca conta com o filhote antes de nascer. Fiquei segurando a respiração desde que minha empresa concordou em patrocinar a viagem, e só relaxei de verdade quando passei pela Imigração e coloquei os pés em solo japonês. Dá pra imaginar como foram estressantes os dias anteriores. Qualquer coisa podia dar errado: o visto podia não ter sido aprovado, podia ter problemas na Imigração alemã, podia ter problemas na Imigração japonesa. Quando muitas variáveis incontroláveis podem dar errado, você precisa planejar com muito cuidado e não baixar a guarda até que cada etapa de risco seja concluída com segurança. Achar que nada vai dar errado, ser confiante demais, é exatamente o que te faz falhar. A Lei de Murphy nunca tira folga, e você também não pode.
Uma dica importante se você pretende visitar o Japão pela primeira vez: não pegue táxi para Tóquio. Narita fica a cerca de 1 hora de Tóquio. No Brasil, temos um transporte público muito precário — o Aeroporto Internacional de Guarulhos em São Paulo fica na cidade de Guarulhos, a menos de uma hora do centro paulistano, então a gente sempre pega táxi. Mas táxi no Japão é caríssimo. O erro de pegar um táxi de Narita até o bairro de Ikebukuro me custou mais de 20.000 ienes, mais de 260 dólares! O dobro do que eu pagaria no Brasil por uma distância similar.
Existe uma solução muito melhor: o Skyliner, um trem rápido, confortável e confiável que te leva direto do saguão do aeroporto para várias estações principais de Tóquio, de onde você alcança praticamente qualquer lugar da cidade. E custa 10 vezes menos que o táxi. Mas eu estava cansado, estava pensando como brasileiro, e ignorei completamente a possibilidade de o aeroporto ter uma linha de trem tão eficiente a poucos metros do portão de chegada.
(TL;DR) Se Adaptando ao Japão
Fiquei num hotel barato chamado Oh-Edo, em Toshima-ku, em Ikebukuro. Fiquei um pouco surpreso com o tamanho minúsculo do quarto pelos padrões brasileiros — normal para os padrões japoneses, eu acho. Lembra que imóvel em Tóquio é caro. Mais do que isso, a densidade populacional é absurda. Para comparar: Tóquio tem mais de 32 milhões de pessoas numa área de 8.000 km² e minha cidade, São Paulo, tem 18,8 milhões numa área similar de 8.400 km². O dobro da densidade, na média!
O dia 14 de julho era quinta-feira e cheguei à noite. Depois de largar a mala e descansar um pouco, decidi explorar o bairro de Ikebukuro. Para contextualizar meu histórico: passei vários anos da infância aprendendo japonês, absorvendo a cultura e a cultura pop. Era muito comum na comunidade japonesa de São Paulo importar fitas VHS com vários programas de TV japoneses — dramas, filmes, shows musicais — todos gravados. Toda semana íamos a uma locadora (havia algumas bem conhecidas em São Paulo nos anos 80 e 90) e assistíamos algumas fitas durante a semana. Havia um gap de cerca de um mês, que era o tempo médio de entrega por navio.
Mais do que isso, especialmente durante os anos 90, fui um ávido fã de manga e anime. Li centenas de volumes de manga em japonês e assisti centenas de horas de animes. O volume absurdo de conteúdo que consumi em mais de 10 anos fez com que eu conhecesse praticamente todos os aspectos de Tóquio e arredores sem nunca ter estado lá. Conhecia tudo na teoria — era hora de experienciar na prática. Mas isso significa que não tive quase nenhum impacto ou choque. Foi um processo de validação do conhecimento mais do que qualquer outra coisa, o que acredito ser bem diferente do que uma pessoa não-japonesa sentiria estando lá.
Muitos poderiam achar que é muito e que provavelmente fui muito dedicado — mas não seria verdade. Muitos nikkeis de segunda ou terceira geração criados nos anos 80 e início dos 90 teriam o mesmo comportamento. Eu até diria que estou abaixo da média de conhecimento japonês se comparado a muitos da minha geração. Há vários nipo-brasileiros que leem, escrevem e falam japonês fluente em nível universitário, o que não é o meu caso.
Outra coisa é que faz vários anos que não pratico o japonês. Meu conhecimento de Kanji é ruim — provavelmente me lembro de menos de 300, que é menos do que um aluno do terceiro ano precisa saber. Para ler um jornal, por exemplo, é preciso conhecer pelo menos 2.000 kanjis. Isso significa que eu conseguia me comportar, ouvir e falar adequadamente — embora com vocabulário falho às vezes — mas não conseguia ler toda placa nas ruas e lojas. Algumas placas importantes têm legendas em inglês, o que ajuda um pouco.
Se bem me lembro, Tóquio não foi uma cidade planejada, então não há organização lógica — a cidade foi crescendo organicamente. Mas uma característica comum dos grandes bairros é que há algumas avenidas largas principais rodeadas por grades de ruas estreitíssimas (sem calçada, mal cabendo um carro). Os prédios ficam colados uns nos outros, dando uma sensação muito compacta às quadras. Os prédios fora das avenidas principais costumam ser muito estreitos também. Isso é resultado da densidade populacional absurda: simplesmente não pode desperdiçar nenhum espaço. Se tiver oportunidade, vá visitar o bairro de Odaiba — infelizmente não tive tempo de ir — mas foi construído sobre o mar, mostrando como a cidade busca formas de criar espaço onde não há.
Outra coisa que confunde estrangeiros é que nos países ocidentais o sistema de endereços geralmente tem ruas e avenidas com nomes e cada casa ou prédio com um número em ordem crescente linear.
Por exemplo, o Hotel Oh-Edo fica em Tokyo-gun, Toshima-ku, Ikebukuro, 2-68-2. Parece estranho? Os endereços na maior parte do Japão são descritos do nome do município (Tokyo-gun), para o bairro administrativo (Toshima-ku) e depois 3 identificadores numéricos divididos por distrito (2-choume), quadra (68-ban), número da casa (2-go) — que, por sinal, não segue nenhuma ordem reconhecível, provavelmente numerado pela ordem de construção dentro da quadra.
Portanto, sem mapa não dá pra se orientar na cidade. Outra dica: tive a sorte de ter impresso o mapa do Google Maps do meu hotel, que o motorista de táxi conseguiu usar para chegar perto da área — e mesmo assim precisamos parar para perguntar o caminho. Então, compre um Guia da Cidade com mapas das principais regiões para não ficar completamente perdido! E sempre que quiser ir a um lugar novo, imprima um mapa do Google Maps ou peça pra alguém desenhar um mapa num papel. Não dá pra chegar às cegas a novos locais confiando apenas na lógica ocidental de nomes de ruas, números lineares, cruzamentos, etc.
A região de Ikebukuro parece ser muito movimentada, com vários blocos comerciais e uma mistura de lojas de conveniência, restaurantes, fliperama, pequenas boates, karaokês — uma área muito animada à noite também. Tudo a uma distância confortável a pé do meu hotel.
A Eficiência do Transporte e do Entretenimento
O principal meio de transporte em Tóquio é definitivamente o sistema ferroviário supereficiente deles. De acordo com a Wikipedia, são 882 estações ferroviárias interconectadas na Metrópole de Tóquio, sendo 282 delas de metrô. Estima-se que cerca de 20 milhões de pessoas usam o trem como principal meio de transporte (não viagens) na área metropolitana diariamente. Para comparar, o país inteiro da Alemanha — com o maior uso per capita de trem na Europa — tem 10 milhões de passageiros diários de trem.
Em São Paulo temos apenas 62 estações, com 3,6 milhões de passageiros por dia. Fico pessoalmente envergonhado quando apresento esse aspecto da minha cidade para amigos estrangeiros. O problema do transporte público é simplesmente péssimo. Para os brasileiros, um sistema ferroviário do tamanho do japonês é algo que só se imagina em ficção científica. Foi realmente avassalador entrar na enorme estação de Ikebukuro pela primeira vez e me sentir perdido, como um ratinho de laboratório num labirinto à procura da saída.
A única coisa que eu sabia era que da estação de Ikebukuro conseguiria pegar a Linha Yamanote, que passa por vários bairros famosos como Akihabara e Shibuya, que eu pretendia visitar na sexta-feira, dia 15. Não encontrei no mapa de primeira, mas conversando com o atendente da estação (e é aqui que falar japonês ajuda muito). A maioria dos japoneses entende um pouco de inglês, mas não fala de forma muito fluente ou compreensível (mais sobre isso depois). Se eu tivesse ficado andando pelas paredes veria os vários mapas de linhas e eventualmente encontraria, mas foi mais fácil quando ele me explicou que eu devia procurar a Linha JR. Em vez de “Yamanote”, que é o nome da linha, as placas apontam para o nome da empresa privada operadora, o “JR”, abreviação de East Japan Railway Company. Então sempre que ver JR nas placas da estação, se refere à Yamanote, que é uma linha circular que passa por vários locais conhecidos na área mais movimentada de Tóquio.
Primeiro fui a Shibuya, que tem várias lojas de roupa, shoppings, restaurantes. Um bom lugar pra fazer compras. Por sinal, várias das principais estações de trem têm shoppings construídos em cima — definitivamente querem que você consuma. E outra coisa que você vai notar é o volume absurdo de ruído visual nos prédios, vários outdoors coloridos e gigantes espalhados pela cidade criando uma paisagem muito colorida e agitada. Similar a algumas partes movimentadas de Nova York, por exemplo.
Compare isso com minha cidade natal de São Paulo, a 4ª maior metrópole do mundo. Em 2007, nosso prefeito proibiu toda a publicidade externa. Foi um programa bastante bem-sucedido — o mercado publicitário reclamou, mas fora isso as pessoas aceitaram. A maioria diz que a cidade ficou muito mais limpa e eu concordo, embora seja um pouco triste que agora seja bem cinzenta e entediante ao mesmo tempo. Não ajuda que, ao contrário de Tóquio, tenhamos poucas árvores e áreas verdes, limitadas a pequenas manchas de vegetação e alguns parques na cidade.
Por falar nisso, me lembra o problema da poluição urbana. Sofremos muito em São Paulo, onde até temos um ditado popular que diz que “em São Paulo as pessoas conseguem ‘ver’ o ar que respiram” — literalmente verdade, dá pra ver uma camada amarelada e pesada de poluição no horizonte cobrindo a cidade. Pessoalmente senti o ar de Tóquio muito mais limpo do que estou acostumado. Provavelmente não tão bom quanto em áreas rurais, mas para uma metrópole do tamanho de Tóquio acho que eles se saem muito bem.
Próxima parada: Akihabara, ou simplesmente “Akiba”. Se você quer eletrônicos e entretenimento nerd, é lá que você vai. É uma área enorme repleta de lojas de eletrônicos, lojas de manga, vários “maid cafés”. Lembre-se de trazer o passaporte para os descontos de duty free.
Por curiosidade, o Japão tem uma grande indústria musical. Mas os japoneses levam a palavra “indústria” muito a sério — eles literalmente produzem cantores ídolos em massa. Garimpar talentos autônomos ainda acontece, mas geralmente é mais difícil e demora mais. Em vez disso, fazem pesquisa de mercado, planejam a longo prazo, fazem grandes audições para encontrar candidatos jovens com potencial que possam ser inseridos no processo, criados, recebendo educação especial, aulas de canto, aulas de dança e transformados em ídolos profissionais. Robôs poderiam quase substituí-los e ninguém perceberia.
(TL;DR) AKB48
Espera — eles estão indo exatamente por esse caminho!
Em Akiba você vai encontrar o AKB48, um dos “produtos de entretenimento” mais radicais que já vi essa indústria entregar. É um grupo enorme com 48 ídolas divididas nos Times A, K e B. Têm até ídolas trainee! A ideia é permitir que os fãs tenham um contato mais próximo com suas ídolas no próprio teatro delas em Akiba, e por isso ter muitas ídolas ajuda a distribuir melhor a agenda. A ideia parece engajar os fãs no futuro do grupo, quase como um reality show de nova geração — que já está em andamento há mais de 6 anos.
O AKB48 está no Guinness World Records como o maior grupo pop da história — óbvio. É uma ideia que entendo, no contexto asiático, mas não consigo ver sendo exportada para fora da Ásia (Coreia e China têm “gostos” similares por ídolos pop). É tão radical que chegaram a criar uma ídola gerada por computador misturando características físicas e faciais de algumas das ídolas reais do grupo. Os fãs ficaram chocados quando ela foi identificada como não sendo uma pessoa real! Vá entender!
Assista ao comercial de TV com a nova ídola:
http://www.youtube.com/embed/Z0fU3O8ynTE
Você conseguiu identificar qual era o modelo CG? Agora veja o making of:
http://www.youtube.com/embed/slvXiVsbkmU
De Volta ao Passeio
Me desviei um pouco, então voltando ao relato. A sexta terminou, e no sábado começa o RubyKaigi, que aconteceria no Centro Cultural de Nerima. Olhando os mapas, percebi que podia pegar a linha Seibu a partir da estação de Ikebukuro direto para Nerima, e assim foi. Uma viagem de menos de 15 minutos de trem me deixou bem do outro lado da rua do centro de convenções — moleza.
Vou deixar o relato específico do RubyKaigi para o próximo artigo, então continuo falando do passeio pela cidade por enquanto.
Durante o período da conferência não visitei nenhum outro lugar. Uma curiosidade: na segunda-feira dia 18, o dia em que ia fazer minha palestra, fui à estação de Ikebukuro pegar o trem Seibu. Estava meio cansado porque tinha ficado trabalhando nos últimos ajustes dos slides de manhã, então não percebi que o trem estava demorando muito para chegar ao destino. Deveria ser uma viagem de 15 minutos.
Aí olhei pela janela e vi que a cidade estava ficando cada vez menos movimentada — menos prédios, menos gente. Estava indo para os subúrbios! Desembarquei na próxima estação, em Musashi-sakai, acho. Lugar tranquilo, quase parecia interior. Olhei com mais atenção o mapa da linha e percebi que havia pelo menos 6 rotas diferentes servidas pela mesma linha Seibu! Peguei outra de volta para Nerima. Essa viagem toda levou mais de uma hora, mas valeu a aprendizagem. Portanto, muito cuidado: cada linha pode ter trens percorrendo rotas diferentes, todos devidamente identificados — é só questão de prestar atenção.

Por sinal, para os estrangeiros ajuda muito que dentro do trem há sempre gravações dizendo o nome da próxima estação, quais outras linhas cruzam a mesma estação caso precise trocar de linha, qual lado do trem vai abrir para a saída — e dizem tudo em japonês e inglês. Além disso, a maioria dos mapas tem versões em japonês e inglês.
Até as máquinas de venda de bilhetes têm opções de menu em inglês. É só olhar o mapa, encontrar sua estação e ver o código numérico ao lado do nome — esse é o preço do bilhete. Na máquina, você toca no botão com aquele valor e insere moedas ou notas. Geralmente fica na faixa de 130 a 190 ienes para a maioria das estações.
Se decidir trocar de linha no meio do percurso para ir a outra estação, há máquinas para ajustar a tarifa. Guarde o bilhete depois de entrar no trem — vai precisar dele para sair na outra estação ou ajustar o preço, ou pode falar com o atendente nas catracas de saída. Os cidadãos japoneses normalmente têm cartões inteligentes recarregáveis chamados Suica e outros como Pasmo e Toica. O Japão tem dezenas de sistemas diferentes de cartão inteligente que você verá escritos em muitos lugares dentro das estações, trens, ônibus.
Os Últimos Dias
No dia seguinte à conferência visitei Ueno, uma área vizinha de Akihabara. Shintaro Kakutani-san foi muito gentil em me receber no seu local de trabalho, a Eiwa System Management. Depois disso, Akira-san me guiou até o escritório de Tóquio da NaCl, a empresa de consultoria onde o próprio Matz trabalha. Por fim, fui a Hatsudai, perto da área de Shinjuku, para encontrar Alencar Koga, um nipo-brasileiro vivendo e trabalhando no Japão há quase 20 anos. Ele me mostrou a MTI, a empresa onde trabalha e que criou produtos mobile famosos como o Music.jp, o segundo maior distribuidor de música do Japão. Vou falar um pouco mais sobre eles no próximo artigo.
A estação de Hatsudai é particularmente interessante. Acho que não está entre as estações principais como Shinjuku, Ueno ou Ikebukuro, mas tem uma arquitetura bonita, muito ampla, e fica ao lado do Tokyo Opera City Tower, que você acessa direto da estação e que abriga várias empresas como a MTI e até a filial japonesa da Apple.
No dia seguinte, quarta-feira dia 20, seria meu último dia em Tóquio. Queria visitar alguns lugares importantes, então fui direto a Asakusa. Cuidado para não confundir com “Akasuka”. Queria ver o famoso Kiryuu-zan Sensou-ji, o templo mais antigo de Tóquio. Quem me conhece sabe que não sou uma pessoa religiosa, mas não era esse o motivo. Respeito a história, especialmente a história dos meus ancestrais. Foi um momento muito poderoso e emocionante ver o templo com os meus próprios olhos e ficar parado lá, imóvel.
Havia também aquela grande caixa vermelha onde as pessoas jogam moedas para rezar ou fazer pedidos. Joguei algumas moedas, mas a única coisa que veio à mente não foi um pedido, e sim algumas palavras de agradecimento e reconhecimento — só isso.
Era um dia nublado e chuvoso, mas não me incomodou nada — pelo contrário, adicionou à sensação de relaxamento e calma, especialmente no templo. Depois disso fui a Ginza, que é dito ser um dos lugares mais luxuosos de Tóquio, especialmente se você tem muito dinheiro para gastar. É similar à 5ª Avenida de Nova York. Como qualquer outro bairro de Tóquio, havia algumas avenidas largas principais cercando os mesmos blocos compactos por trás com as mesmas ruas estreitíssimas.
Infelizmente não tive tempo suficiente para explorá-la direito. Então só andei por uma das avenidas principais tirando fotos. É impressionante. Cada grande marca tem sua própria fachada enorme em um grande prédio — não sei se são donos do prédio inteiro ou só da fachada — mas você vai reconhecer várias delas, como Tiffany, Prada, Salvatore Ferragamo, Abercrombie e mais. Se for visitar Tóquio, reserve um dia inteiro só para Ginza — vale muito. Na verdade, o ideal seria reservar pelo menos meio dia para cada grande bairro de Tóquio. Isso facilmente preenche um mês inteiro de férias por lá.
Não pude ficar mais em Ginza porque estava quase anoitecendo e com o tempo nublado escureceria rápido. Queria visitar a Torre de Tóquio antes disso para conseguir pelo menos algumas fotos visíveis.

Tinha um Guia da Cidade de Tóquio comigo o tempo todo, muito útil. Mas o guia teve um erro: dizia que para visitar a Torre de Tóquio eu deveria ir a Roppongi. Mas ao perguntar para os atendentes da estação, disseram que eu precisava ir à estação Kamiyacho! Pensando bem, acho que o raciocínio dos autores do livro foi que Kamiyacho parece uma área pequena que não merece um capítulo inteiro no guia. Então a próxima área importante é Roppongi, e eles simplesmente colocaram a Torre de Tóquio lá. Mais uma vez: não confie apenas em uma fonte de informação para estrangeiros. Perguntar para os locais é sempre o melhor caminho, e os japoneses são sempre muito prestativos e gentis.
Quando cheguei a Kamiyacho de metrô, estava chovendo e escurecendo rápido, mas consegui chegar à Torre de Tóquio rapidamente, andando apenas meio quilômetro. A torre é linda. Paga-se uma tarifa pequena para entrar e subir de elevador até o observatório, a 135m de altura. A torre em si tem 333m, tornando-a 10m mais alta que a Torre Eiffel. Visitei o 1º e o 2º andares do observatório, mas infelizmente não tive tempo de visitar o Observatório Especial no topo. Mas foi o suficiente — muito mais interessante do que eu esperava. O observatório é bastante amplo: tem lojas de presentes e uma cafeteria bem aconchegante no 1º andar, de onde você pode tomar um café admirando a vista aérea de Tóquio pelas grandes janelas.
No 1º andar tem o Club 333, que toda quarta e quinta tem pequenos shows. Consegui ver um show de música ao vivo por cantores independentes que fizeram várias performances de covers, como a música Impossible do Nate James.
http://www.youtube.com/embed/nJUHDwghi0E
Na base da torre tem um prédio de três andares com outra cafeteria, até um McDonald’s, e várias lojas de souvenirs (os japoneses adoram souvenir — chamamos de “omiyage” e “meibutsu”).
Tinha até uma pequena galeria com tema de Tóquio antiga, com pinturas de Tomonori Kogawa. Se você achar que essas pinturas lembram anime, está certo — ele trabalhou como animador para o famoso estúdio Sunrise nos anos 80. Havia vários itens e textos explicativos também. Muitos estrangeiros provavelmente reconhecerão uma Gueixa, mas poucos vão perceber que até as gueixas obedeciam a um sistema de hierarquia muito rígido! O respeito à hierarquia é levado muito a sério até hoje e está arraigado na cultura japonesa.
Como disse, sou um ávido fã de manga. Então a Torre de Tóquio era o cenário de vários dos meus títulos favoritos, como o Rayearth da Clamp — então mais do que um ponto turístico que dá boas fotos, gosto de pensar que ela tem um significado mais pessoal para mim, já que apareceu tantas vezes na minha juventude.

Uma Pequena Consideração Sobre Sushi
Por fim, saí de Kamiyacho e fui a Roppongi. Lá tirei algumas fotos do famoso Roppongi Hills, uma obra de engenharia muito ambiciosa. Um complexo enorme de escritórios, lojas, teatros e mais. Só vi a fachada e, de novo, não tive tempo para um tour completo por dentro. Mas é certamente um complexo gigante — a estação de metrô tem corredores que entram diretamente no complexo.

Em Roppongi encontrei Koga-san de novo para jantar. Por acaso encontramos um restaurante de sushi e como ainda não tinha comido sushi, pensei que seria uma boa oportunidade. Koga-san recomenda ir ao Tsukiji, onde fica o “Mercado Central Atacadista Metropolitano de Tóquio”. É o lugar para encontrar o peixe mais fresco de Tóquio — e portanto onde provavelmente vai encontrar o melhor sushi e sashimi disponível. Dito isso, já era tarde da noite então decidi ficar em Roppongi, onde tinha certeza que o sushi “médio” seria muito melhor do que o melhor sushi do Brasil. E estava certo!
Sushi e sashimi na maior parte do mundo ocidental (América do Norte e do Sul) é simplesmente uma porcaria. O pessoal ocidental subestima completamente o sushi. É uma iguaria simples que leva anos para dominar, exatamente porque é muito simples. Simplicidade significa que não dá pra disfarçar: ou é bem feito ou é um desastre. E só encontro sushi ruim na América, não importa onde eu vá. Existem muito poucos bons, com certeza, mas são raros. Então foi um prazer absoluto provar um sushi assim. Foi a primeira vez que provei um sushi “de verdade”. Peça “Oh-Toro” — o corte gordo do atum e o ingrediente mais delicioso do sushi. Um bom Oh-Toro literalmente “dissolve” na boca. Absolutamente delicioso. Não tenho palavras suficientes para descrever, você tem que provar para entender.
Dicas: nunca encha o pratinho com muito shoyu (molho de soja). É um pecado capital mergulhar a parte do arroz inteiro nele. A ideia é sentir o sabor do peixe e do arroz, não do molho de soja. Você só precisa de um leve toque de shoyu na parte do peixe. Por isso você precisa virar o sushi de cabeça para baixo ao tocar no pratinho de shoyu. Isso é muito difícil de fazer com ohashi (hashi), mas o nigiri-sushi foi feito para ser segurado com os dedos — essa é a forma correta de comer sushi. E um bom sushi foi feito para ser comido em apenas uma mordida. Coloca tudo na boca de uma vez! Você também não precisa de wasabi extra no shoyu, pois o sushiman já coloca a quantidade correta entre o peixe e o bolinho de arroz. E esse bolinho deve ser pequeno, firme e não se desfazer facilmente. E não, cream cheese e todos esses ingredientes “sofisticados” não são sushi de verdade.
Agora você sabe que estava comendo sushi uma merda e do jeito errado. Fico sempre muito frustrado toda vez que saio com amigos num restaurante japonês, então estou apenas expressando meus anos de frustração acumulada nesses últimos parágrafos. Tinha que ser dito.
(TL;DR) Aspectos Pessoais que Gostei
Bom, terça e quarta foram dias nublados e chuvosos, mas foi bom porque o calor estava intenso. Na noite de sexta, dia 15, vivi meu primeiro tremor de terra. Estava lendo uma revista na cama e senti um movimento lento — de início achei que estava passando mal, mas alguns segundos depois vi que as paredes e o teto estavam se movendo de verdade. Foi um terremoto muito fraco que durou apenas alguns segundos. Tempo suficiente para eu me sentar na cama e me perguntar se devia ir para debaixo da mesa. Enquanto tentava decidir o que fazer, parou. Foi bastante divertido — nunca pensei que conseguiria sentir um terremoto de verdade. O Brasil não tem ameaças naturais como terremotos, furacões, tsunamis ou nada assim.
Depois, na madrugada de quarta-feira dia 20, disseram que um Tufão tinha atingido o Japão também, mas dormi demais e quando acordei já tinha passado. Precisa refletir sobre isso: o Japão é um país muito pequeno, com menos de 380.000 km². O Mato Grosso, o 6º maior estado dos 27 do Brasil, tem cerca de 360.000 km². Meu estado de São Paulo tem 248.000 km².
Pior ainda: 10% dos vulcões ativos do mundo ficam no Japão. Segundo a Wikipedia, há pelo menos 1.500 terremotos registrados por ano. Há tremores menores acontecendo todos os dias em algum lugar do país.
Uma reflexão que sempre vem à minha mente é que ameaças naturais assim tornam uma população muito mais forte e tolerante a desastres. Por causa de tantos desastres naturais no Japão — terremotos, tufões, tsunamis e até o tão discutido desastre de Fukushima recentemente — isso realmente forma uma população muito resistente. Por exemplo, por causa dos terremotos tão frequentes, o Japão é o principal pesquisador em previsão de terremotos e em engenharia civil avançada que permite construir arranha-céus que podem literalmente balançar vários metros sem desabar.
Os seres humanos sempre atribuem valor mais alto às coisas que não têm. Então para um japonês, viver em um lugar livre de ameaças naturais, com grandes áreas abertas com vegetação e florestas, onde plantar frutas e legumes é possível e o clima é quente e agradável, é nada mais do que um sonho distante.
Para os brasileiros, por outro lado, essa é a realidade. E a gente toma isso como garantido exatamente porque não faz ideia do que são ameaças naturais dessa magnitude. O mesmo pode ser dito sobre a guerra. Estou sendo simplista demais, eu sei, mas a paz geralmente é muito valorizada por quem viveu tempos de guerra violenta. Quem nasceu e cresceu em tempos de paz não vai dar o devido valor a ela.
“Valor” é dado às coisas que são raras. Se você tem demais de qualquer coisa, não sente que vale muito porque a toma como garantida. Algo para refletir — mas de novo, me desviei.

Pelas fotos dá pra ver que as ruas japonesas são muito limpas e organizadas. Até as ruas internas e escondidas são muito limpas. As avenidas principais raramente têm marcas de chiclete no asfalto — as pessoas não cospem em público. Nem fumar em lugares públicos é permitido, então não há bitucas de cigarro nas ruas. Geralmente há áreas reservadas perto das estações chamadas “áreas de fumantes”. Você só pode fumar nessas áreas, dentro de lojas ou em salas de fumantes fechadas especiais com ventilação adequada e filtros de ar — e isso permite uma paisagem muito limpa.

Tinha uma coisa que eu sabia que os japoneses tinham e que sei que você vai rir quando eu contar — mas continue lendo. São os Washlets! É um assento de vaso sanitário especial. No mundo ocidental nos limpamos com papel higiênico, com as mãos, e jogamos esse papel no lixo. Pense bem: aproximamos as mãos de material muito sujo. Descartamos esse papel sujo no lixo, onde pode acumular por alguns dias no banheiro. Não é bem um risco à saúde, mas parece sujo. Então esse assento especial jorra um jato de água morna diretamente na sua parte de trás, limpando antes de você usar papel higiênico para secar. Não sei você, mas parece muito mais limpo assim. Praticamente todo prédio e casa moderna japonesa tem esse Washlet disponível.

Se você é estrangeiro, fique atento. Não é incomum estrangeiros apertar o botão do jato de água sem saber e levar um susto com esse jato forte e morno. Não sei se é uma característica comum a todos eles, mas também dão descarga automaticamente. Como mencionei, imóveis no Japão são ridiculamente caros exatamente porque há muito pouca terra para compartilhar. Então as casas japonesas comuns também são ridiculamente pequenas e estreitas. Para ter uma ideia, bairros maiores como Ikebukuro e Shibuya têm hotéis cápsula. Em vez de alugar um quarto de hotel para passar a noite, você pode alugar uma cápsula de dormir — caso tenha perdido o último trem. É muito pequeno, você só consegue ficar deitado dentro.
Também não é raro que uma residência pequena não tenha banheiro, então o prédio tem um banheiro compartilhado. E você só toma banho em casas de banho públicas (sentou) por perto. Mas como você pode imaginar, isso não é considerado algo “de baixo nível” ou só para “pobres”. É uma coisa bastante normal. Como vou repetir muitas vezes: não julgue a cultura alheia pelos seus próprios padrões.
E isso não quer dizer que todo japonês tem hábitos de limpeza perfeitos — não têm. Áreas públicas podem ser até mais limpas do que as próprias casas. O raciocínio que especulo é que se você tem uma casa pequena, é solteiro e geralmente não recebe visitas, provavelmente não vai limpá-la bem o suficiente. Por outro lado, a fachada da sua casa é visível para todos e você não quer ser percebido como alguém com hábitos ruins de limpeza, então vai manter essa parte mais arrumada.
(Nota cultural: esse artigo é enorme, eu sei, mas aposto que a única coisa que alguns dos meus amigos brasileiros vão comentar é essa seção do banheiro — tal é o nonsense do jeito latino de ser.)
Os japoneses são muito conscientes de sua imagem pública e a mantêm sempre limpa, tanto fisicamente quanto em termos de polidez e formalidade. Os japoneses são muito mais formais do que o pessoal ocidental, mesmo em pequenos círculos de amigos próximos. Não vão assumir um nível mais alto de liberdade entre si, a menos que isso seja explicitamente estabelecido.
Quando visitei a MTI com Koga-san, fomos a um pub próximo. Lá encontramos alguns dos colegas dele. Koga-san comprou 2 garrafas de cerveja para todo mundo. Mesmo se conhecendo e sendo considerados colegas ou amigos, como Koga-san tem uma posição respeitável na empresa, fizeram muito cerimonial e agradeceram muito — mais do que costumamos ver em grupos ocidentais. Outra curiosidade: em bares com amigos, você geralmente não enche o próprio copo. É responsabilidade da pessoa ao seu lado manter seu copo cheio. E não é para bajulação — é só uma formalidade cotidiana muito normal. Os japoneses têm vários protocolos sociais que seguem automaticamente, sendo esse um deles.

Por fim, duas últimas coisas que preciso relatar. Nunca me senti tão seguro na vida. Andei por muitos lugares ao redor e nunca tive a sensação de que poderia ser assaltado. Podia abrir a carteira, contar dinheiro andando, usar minha filmadora, meu celular e nunca pensei em nada ruim acontecendo — tal é o nível de segurança em uma das maiores metrópoles do mundo. Nunca faria metade do que fiz em São Paulo, nem em Nova York. Estaria sempre olhando por cima do ombro, com cuidado ao mexer no celular ou tirar fotos. É uma diferença enorme. Acho que só canadenses e alguns cidadãos do norte europeu conseguem afirmar o mesmo.
Depois, tem o sistema de transporte de que já falei tanto. Há mais uma coisa: eles são pontuais. E não quero dizer “mais ou menos” ou “às vezes” — são “perfeitamente pontuais”. Se o trem está programado para chegar à estação às 7h37, ele chegará precisamente às 7h37 — do contrário, qual seria o sentido de não arredondar os números? A margem de erro é de cerca de 1 minuto. Não vi nenhum trem se atrasar. Os japoneses têm um alto orgulho pela pontualidade, e se vê. É um dos pouquíssimos lugares do mundo onde você vai presenciar um sistema que realmente funciona como prometido.
Se você somar a sensação de relaxamento pela segurança e os sistemas e processos que funcionam perfeitamente pela cidade, isso fisicamente te deixa menos estressado do que na minha cidade de São Paulo. Aqui preciso ficar constantemente preocupado com segurança e fico muito estressado por causa do trânsito, compromissos atrasados e sistemas e serviços que não funcionam. É difícil para quem não vive em grandes metrópoles entender o quanto essa diferença é grande. Fiquei completamente relaxado o tempo todo no Japão, sem nenhuma preocupação. Quando voltei para São Paulo, tudo voltou — todas as preocupações, todas as frustrações, todo o estresse. Doloroso, de verdade.
Despedida
Queria ficar mais alguns dias, mas não foi possível. Infelizmente não tive tempo suficiente para visitar algumas outras áreas que tinha em mente, como Harajuku. Mas pelo menos consegui visitar muitos dos lugares que queria, especialmente Akiba e Asakusa, que estavam no topo da minha lista.
No último dia, peguei um táxi até a estação Nippori — só porque a mala estava muito pesada, do contrário teria andado até a estação de Ikebukuro e de lá até Nippori. De Nippori você pode comprar o bilhete do Airport Express Skyliner, menos de 20 dólares se não me engano. Tem assentos marcados, é muito muito confortável e vai direto para dentro do Aeroporto de Narita. Não podia ser mais conveniente — queria que tivéssemos algo parecido em São Paulo.
Há vários aspectos da cultura japonesa que vou explicar em mais detalhe nos próximos artigos — este foi só um artigo de aquecimento para o que vem por aí.