[Off-Topic] Opiniões, Verdades, Democracia e Ética
Muita gente talvez não tenha entendido minha posição no artigo anterior, Mea Culpa: Organizações Democráticas não Funcionam. Recomendo ler aquele texto com calma para entender o conceito correto de Democracia. Aqui vou complementar.
O maior problema de todos é acreditar que “democracia” é a única e melhor forma de governar, ou de decidir qualquer coisa, porque “a maioria”, “o povo”, “as massas” sempre teriam razão, e o que foi decidido coletivamente deve prevalecer. Esse é o maior erro de todos os tempos.

Resumindo o que disse antes: liberdade é importante, defender a liberdade é importante, e a liberdade mais importante a defender é a do indivíduo. A maioria jamais deve tiranizar a minoria. E a menor minoria sempre é o indivíduo. Se um indivíduo é privado de sua liberdade, não existe liberdade para ninguém.
Num estado de liberdade, todos têm direito a formular e expressar suas opiniões. A confusão começa quando uma opinião é proferida por uma “maioria”. Democraticamente falando, essa “opinião” parece ganhar muito valor. E aí está outro grande erro.
Vamos definir:
Opinião: uma visão ou julgamento formado sobre alguma coisa, não necessariamente baseado em fato ou conhecimento.
Verdadeiro: de acordo com fato ou realidade. Apurado, exato. Real.
Opinião não é fato nem verdade.
A opinião de uma maioria jamais será automaticamente uma verdade. Qualquer opinião de uma maioria jamais valerá mais do que a verdade comprovada por um único indivíduo, não importa o tamanho dessa maioria.
Isso é importante. Foi por isso que eu disse que a melhor forma de pensar organizações passa longe do modelo “puramente” democrático. No nosso nicho de desenvolvimento de software, muitos assumem que agilistas e métodos ágeis são “democráticos”. Se você ler a própria Wikipedia sobre Scrum, encontra esta definição de “equipe”:
Uma Equipe é responsável por entregar o produto. Uma Equipe é tipicamente formada por 5 a 9 pessoas com capacidades cross-funcionais que realizam o trabalho propriamente dito (análise, design, desenvolvimento, teste, comunicação técnica, documentação, etc). É recomendado que a Equipe seja auto-organizada e auto-liderada, mas normalmente trabalhe com alguma forma de projeto ou gerenciamento de equipe.
Em nenhum momento se diz que a Equipe pode ser anárquica. Mas as pessoas leem errado o conceito de auto-organização como “fazemos como queremos”. E isso está completamente errado.
É o mesmo problema de um sistema de governo puramente democrático. A maioria pode decidir entre si a implementação de uma lei, um princípio ou uma verdade. Um princípio inviolável e indiscutível, por exemplo, é que o indivíduo deve conseguir manter para si os produtos do próprio trabalho. A comunidade pode decidir, democraticamente, se a implementação será um corpo policial com custo dividido igualmente entre todos.
Esse é o ponto que falta quando falamos em organizações ou equipes ágeis. As equipes podem decidir democraticamente como executar a implementação, mas todos precisam entender que existem princípios invioláveis limitando quais decisões essa “democracia” pode tomar.
Voto ignorante em grande volume, para mim, significa apenas um grande volume de ignorância. Quer definir o que é verdade? Estude, pesquise, demonstre, prove. Basta um único indivíduo com a demonstração correta para destroçar a opinião de qualquer maioria. O contrário nunca acontece.
Veja o caso de uma empresa: o objetivo dela é obter a maior quantidade de lucro possível. Um trabalho não tem outro objetivo além de dar lucro. Portanto, de nada adianta você fazer o software mais bem feito (na sua opinião pessoal, aliás, o que não torna isso um fato) se ele gera prejuízo em vez de lucro.
Lucro é uma premissa, mas não é a única. Lembre-se da definição de “Equipe”. Uma equipe deve ser “responsável”, ou seja, deve se comprometer a entregar um projeto do jeito que o cliente espera, incluindo o gerenciamento dessa expectativa (assunto que detalho em outro artigo).
Um projeto encomendado a uma equipe pertence a quem paga por ele. Uma equipe dita ágil, ao assumir um projeto, assume junto o cuidado com as expectativas do cliente, do começo ao fim, muito além de simplesmente codificar o produto pedido.
Mais ainda: o objetivo de um projeto é atingir um resultado para o cliente. O cliente não se importa se o software usa a técnica X ou Y para aumentar a qualidade, porque qualidade é uma característica trivial, já esperada por quem encomenda. O valor para o cliente vem do resultado que o software gera.
Pense num projeto de e-commerce. O que importa são as vendas que ele gera, muito mais do que o software em si. Se você fizer o sistema mais avançado do mundo, com as melhores arquiteturas e tecnologias, mas que nunca vendeu um único produto, ele não vale nada. Já um e-commerce feito com as piores tecnologias, cheio de todas as gambiarras já documentadas, mas que ajudou a gerar um milhão de vendas diretas ao cliente, é infinitamente superior, sem discussão.
Um desenvolvedor deve prezar pelo seu trabalho técnico. Isso é ótimo e deve continuar. Um arquiteto de sistemas preza por sua análise e arquitetura, sem problema nenhum. Um agilista preza por seus processos e rituais. Cada profissional deve sempre tentar o melhor no que faz.
Só que nenhuma dessas atividades é mais importante que a do outro, e nenhuma delas é um fim em si mesma. Um desenvolvedor preocupado única e exclusivamente com o próprio código, a qualquer custo, é um péssimo profissional.

E aqui entra a diferença entre um profissional e um amador: a ética profissional.
O profissional carrega responsabilidades morais adicionais àquelas da população em geral e da sociedade. Isso porque profissionais são capazes de tomar e agir em decisões informadas em situações onde o público em geral não conseguiria, porque não recebeu o treinamento relevante. Por exemplo, uma pessoa comum do público não poderia ser responsabilizada por falhar em agir para salvar a vítima de um acidente de carro porque não conseguiu realizar uma traqueotomia de emergência. Isso porque ela não tinha o conhecimento relevante. Em contraste, um médico totalmente treinado (com o equipamento correto) seria capaz de realizar o diagnóstico correto e o procedimento, e nós julgaríamos incorreto se ele ficasse parado sem ajudar nessa situação. Você não pode ser responsabilizado por não realizar algo que não tem capacidade de fazer. Éticas são regras e valores usados em um ambiente profissional.
A tradição da medicina, por exemplo, herda o Juramento de Hipócrates, atualizado ao longo de milênios. Esta é a versão moderna:
- Juro cumprir, o melhor que minha habilidade permitir, esta aliança:
- Respeitarei os ganhos científicos duramente conquistados por aqueles médicos cujos passos eu sigo, e compartilharei tal conhecimento com prazer como é meu, àqueles que seguirão.
- Aplicarei, para benefício do doente, todas as medidas requeridas, evitando as facas de dois gumes do tratamento excessivo e niilismo terapêutico.
- Lembrarei que existe arte à medicina assim como ciência, e que o calor, simpatia e entendimento podem superar o bisturi do cirurgião ou a droga do químico.
- Não me envergonharei em dizer “Eu não sei” nem falharei em chamar meus colegas quando as capacidades de outros são necessárias para a recuperação do paciente.
- Respeitarei a privacidade de meus pacientes, pois seus problemas não são revelados para mim para que o mundo saiba. Mais especificamente devo tratar com cuidado em casos de vida ou morte. Se me é dada a tarefa de salvar uma vida, muitos agradecimentos. Mas também pode estar dentro do meu poder retirar uma vida; esta responsabilidade incrível deve ser encarada com grande humildade e consciência da minha própria fragilidade. Acima de tudo, eu não devo brincar com Deus.
- Me lembrarei que eu não trato um gráfico de febre ou um câncer em crescimento, mas um humano doente, cuja doença pode afetar a família e estabilidade econômica da pessoa. Minha responsabilidade inclui esses problemas relacionados, para tratar adequadamente o doente.
- Prevenirei doença sempre que puder, pois prevenção é preferível à cura.
- Me lembrarei que continuo sendo um membro da sociedade, com obrigações especiais com todos os meus companheiros humanos, aqueles sãos de mente e corpo, assim como os enfermos.
- Se eu não violar este juramento, que eu possa desfrutar a vida e a arte, respeitado enquanto viver e lembrado com afeição após. Que eu aja somente para preservar as finas tradições do meu chamado e que eu aprecie por muito tempo a experiência de curar aqueles que procuram minha ajuda.
Está longe de ser uma versão “definitiva”, mas vou aproveitar para adaptar, bem de perto do Juramento de Hipócrates, o que seria um rascunho de juramento para programadores. Só para deixar clara a ideia de que todo profissional tem responsabilidades maiores do que a sua atividade geral de trabalho:
- Juro cumprir, o melhor que minha habilidade permitir, esta aliança:
- Respeitarei os ganhos científicos duramente conquistados por aqueles programadores cujos passos eu sigo, e compartilharei tal conhecimento com prazer como é meu, àqueles que seguirão.
- Aplicarei, para benefício do cliente, todas as medidas requeridas, evitando as facas de dois gumes da aplicação excessiva de tecnologias ou preconceito por marcas ou tecnologias que desconheço.
- Lembrarei que existe arte no desenvolvimento de software assim como ciência, e que o calor, simpatia e entendimento podem superar o código do programador ou o diagrama do analista.
- Não me envergonharei em dizer “Eu não sei” nem falharei em chamar meus colegas quando as capacidades de outros são necessárias para o benefício do projeto do cliente.
- Respeitarei a privacidade de meus clientes, pois seus problemas não são revelados para mim para que o mundo saiba. Mais especificamente devo tratar com cuidado projetos de minha empresa ou meus clientes. Se me é dada a tarefa de entregar um projeto, muitos agradecimentos. Mas também pode estar dentro do meu poder recuperar um projeto fracassando; esta responsabilidade incrível deve ser encarada com grande humildade e consciência da minha própria fragilidade. Acima de tudo, eu não devo brincar em serviço.
- Me lembrarei que eu não lido com um arquivo de código ou uma ferramenta de edição, mas um projeto, cujo resultado pode afetar a estabilidade econômica do cliente, dos funcionários da empresa do cliente e suas famílias. Minha responsabilidade inclui esses problemas relacionados, para desenvolver adequadamente o projeto.
- Prevenirei bugs e problemas técnicos sempre que puder, pois prevenção é preferível à correção.
- Me lembrarei que continuo sendo um membro da sociedade, com obrigações especiais com todos os tipos de projetos, aqueles que eu posso começar do zero do meu jeito, ou os que herdar com estilo de outros.
- Se eu não violar este juramento, que eu possa desfrutar a vida e a arte, respeitado enquanto viver e lembrado com afeição após. Que eu aja somente para preservar as finas tradições do meu chamado e que eu aprecie por muito tempo a experiência de desenvolver projetos àqueles que procuram minha ajuda.
Meu ponto com este texto é lembrar o seguinte:
- parem de usar “democracia” com conotação populista. Quem precisa ser protegido e beneficiado é o resultado do cliente e seus projetos, muito antes da “equipe”. Nunca se esqueçam disso.
- certos princípios são invioláveis e não estão abertos a votação: objetivos de negócio numa ponta, ética profissional na outra.
- todos têm direito a ter e expressar opiniões pessoais, mas opinião é só isso: opinião. E voto nenhum transforma opinião em verdade. 2 + 2 será 4 não importa quantas pessoas votem que é 5.
- demonstrem um pouco de respeito e dignidade pela sua profissão. Você trabalha em benefício próprio, sim, mas sem causar prejuízo aos outros. Vou repetir isto ad nauseam: você só tem trabalho porque existe alguém disposto a pagar por ele. Seja ético, seja profissional.

Sinceramente, me incomoda pensar num mundo em que uma maioria ignorante pode decidir, por votação, que a Terra é plana, que simpatia funciona, que um funcionário “merece” um salário maior do que a empresa tem condições de pagar, que a diversão de um “profissional” está acima de suas responsabilidades. Jurem a si mesmos, não a mim nem a um terceiro qualquer, que serão profissionais. Ou desistam de trabalhar na mesma área que a nossa, para pararem de envergonhar quem leva isso a sério.
