[Off-Topic] Mea Culpa: Organizações Democráticas não Funcionam

25 de abril de 2011 · 💬 Participe da Discussão
Se tem preguiça de ler, clique aqui pro TL;DR

Quem me acompanha há uns quatro anos nas discussões sobre gestão e organização de empresas vai lembrar que eu muitas vezes flertei e procurei defender um tipo de organização “democrática”. Esse conceito sempre foi incompleto, e eu imaginava que mais cedo ou mais tarde a equação fecharia.

Em vez disso, estou voltando ao zero e redefinindo tudo. A primeira coisa que preciso corrigir é o uso da palavra “Democracia”. Ela não descreve o tipo de organização que eu tenho em mente.

Minha linha de pensamento sempre partiu do Evolucionismo Darwinista. É a única forma pela qual o Caos tende a uma certa Ordem, através de auto-organização. Esse processo envolve vários mecanismos, e é sobre eles que já palestrei: Redes de Livre Escala, Sistemas Complexos Adaptativos, e como tudo isso leva a processos e metodologias, incluindo o tão discutido Scrum.

Essa linha de estudo, que você pode acompanhar nos meus blogs e palestras dos últimos três anos, passa de raspão por biologia, sociologia, psicologia, filosofia, física e matemática. No fim das contas, o caminho mais coerente parecia levar ao que hoje se chama de Organizações Democráticas, principalmente por causa de cases famosos como a Semco, de Ricardo Semler, além de aspectos democráticos observados em empresas como Southwest Airlines, Dreamhost, Groupon e Zappos.

Só que eu mesmo caí naquilo que sempre critico: um punhado de evidências positivas sobre um modelo, por melhores que sejam, nunca prova o modelo. Concluir apenas a partir de evidências positivas é a mesma coisa que cargo cult. Por isso preciso corrigir o rumo: o tipo de organização que descrevo e defendo não tem a ver com “Democracia”. Na minha concepção, o termo “Organizações Democráticas” é um erro.

Democracia vs República

Ainda bem que nosso país se chama “República Federativa do Brasil”. Hoje em dia não conheço ninguém que fale mal da palavra “democracia”. Não vou dar uma aula de política, até porque estudei quase nada de ciências políticas. Sem entrar em todas as ramificações, quero descer primeiro às definições mínimas do termo e às ideias originais.

Eu não defendo o dono do site que vou citar, nem todas as ideias dele, mas o texto serve ao meu propósito, então resolvi traduzi-lo direto. O original é este artigo de Gary McLeod. Se procurar no Google por “democracy vs republic”, você acha centenas de artigos detalhando as diferenças. Por enquanto, este serve. Segue a tradução:

Governo pela Lei vs Governo pela Maioria

Logo depois de completar a assinatura da Constituição, em resposta à pergunta de uma mulher sobre o tipo de governo que os Fundadores criaram, Benjamin Franklin disse, “Uma República, se vocês conseguirem mantê-la.”

Não só falhamos em mantê-la, mas a maioria nem sabe o que é isso.

Uma República é um governo representativo dirigido pela lei (a Constituição). Uma Democracia é um governo direto ( nota do Akita: sim, existe democracia representativa, mas como disse não vou descer todas as ramificações) dirigido pela maioria (governo de máfia). Uma República reconhece os direitos inalienáveis dos indivíduos enquanto democracias somente se preocupam com os desejos e necessidades do grupo (o bem público). Criar leis é um processo deliberativo lento na nossa República Constitucional, requerendo a aprovação de 3 ramificações do governo, a Suprema Corte e juristas individuais (júri de nulificação). Criar leis em nossa democracia sem lei acontece rapidamente requerendo aprovação de um capricho da maioria como determinada por enquetes ou referendums. Um bom exemplo de democracia em ação é o linchamento.

Democracias sempre se auto-destróem quando a maioria não-produtiva se dá conta que pode votar para ganho próprio em prejuízo da minoria produtiva elegendo o candidato que promete mais benefícios do tesouro público. Para manter seu poder, esses candidatos devem adotar impostos cada vez maiores e maior gastança para satisfazer os desejos sempre crescentes da maioria. À medida que impostos crescem, o incentivo à produção decresce, fazendo com que os poucos que produziam desistam e se juntem aos não-produtivos. Quando não houver mais produtores suficientes para financiar as funções legítimas do governo e programas socialistas, a democracia entrará em colapso, sempre para ser seguida por uma ditadura.

Mesmo que quase todos os políticos, professores, jornalistas e cidadãos acreditem que nossos Fundadores tenham criado uma democracia, isso não é verdade em absoluto. Os Fundadores sabiam muito bem das diferenças entre uma República e uma Democracia e eles repetidamente e enfaticamente diziam que eles fundaram uma República.

Artigo IV Seção 4, da Constituição “garante a cada estado nesta união uma forma de governo Republicana” … Reciprocamente, a palavra Democracia não é mencionada nem mesmo uma vez na Constituição. Madison nos avisou dos perigos da democracia com estas palavras,

“Democracias sempre foram espetáculos de turbulência e contenção; sempre foram incompatíveis com segurança pessoal ou os direitos de propriedade; e em geral tiveram tempo de vida tão curto quanto tiveram mortes violentas …”,

“Nós podemos definir uma república como sendo … um governo que deriva todos os seus poderes diretamente ou indiretamente do grande corpo de pessoas, e é administrado por pessoas que mantêm seus escritórios durante bons tempos por um período limitado, ou durante bom comportamento. É essencial para tal governo que ele seja derivado de um grande corpo da sociedade, não de uma proporção inconsiderável de uma classe favorecida por ele; caso contrário um punhado de nobres tiranos, exercitando sua opressão por uma delegação de seu poder, pode aspirar serem republicanos e clamarem por seu governo como tendo o título honroso de república” James Madison, Federalist No. 10, (1787)

“Um homem sábio não abandonará seu direito à mercê da sorte, nem deseja que ela prevaleça pelo poder da maioria. Há pouca virtude nas ações de massas de homens.” Henry David Thoreau (1817-1862)

Nossos manuais de treinamento militar costumavam conter as definições corretas de Democracia e República. O seguinte vem dos Manuais de Treinamento No. 2000-25 publicados pelo Departamento de Guerra, 30 de Novembro de 1928.

DEMOCRACIA:

  • Um governo das massas.
  • Autoridade derivada através da reunião em massa ou qualquer outra forma de expressão “direta”.
  • Resulta em mafiocracia.
  • Atitude sobre propriedade é comunista, negando direito à propriedade.
  • Atitude sobre leis é que o desejo da maioria deve regular, seja baseada em deliberação ou governado por paixão, preconceito e impulso, sem limitações ou consideração às consequências.
  • Resulta em demagocia, licença, agitação, descontentamento, anarquia.

REPÚBLICA:

  • Autoridade é derivada através das pessoas elegendo oficiais públicos melhor qualificados para representá-los.
  • Atitude sobre a lei é a administração da justiça de acordo com princípios fixos e evidência estabelecida, com consideração estrita às consequências.
  • Um número maior de cidadãos e extensão de território podem ser adicionadas ao seu compasso.
  • Evita os perigosos extremos de tirania ou mafiocracia.
  • Resulta em estadismo, liberdade, razão, justiça, contentamento e progresso.
  • É a “forma padrão” de governo pelo mundo.

Os manuais contendo tais definições foram destruídos sem explicação na mesma época que o presidente Franklin D. Roosevelt (F.D.R) tornou ilegal a propriedade privada de nosso dinheiro legítimo (Moedas de Ouro cunhadas). Logo depois que as pessoas entregaram suas moedas de ouro de $20, o preço subiu de $20 por onça para $35 por onça. Quase do dia para a noite, F.D.R, o mais popular presidente deste século (eleito 4 vezes) saqueou quase metade da riqueza desta nação, enquanto convencia as pessoas que era para seu próprio bem. Muitas das políticas do F.D.R. foram sugeridas pelo seu braço direito, Harry Hopkins, que dizia,

“Impostos e Impostos, Gastos e Gastos, Eleger e Eleger, porque as pessoas são burras demais para saber a diferença”

Não Pode Ser Democracia

Se você pesquisar ao menos os verbetes da Wikipedia sobre Democracia e República, vai ver que o assunto é bem mais complexo do que isso.

O que mais admiro nos Pais Fundadores dos Estados Unidos é a clareza filosófica e política que os levou a descrever uma República baseada em Direitos Individuais inalienáveis. Disso saíram fundações sólidas como a Declaração de Independência e a Carta de Direitos. Não estou dizendo que eram pessoas perfeitas, todos tinham mil defeitos, mas não é nisso que devemos travar (isso seria Falácia do Homem de Palha).

As ditas Organizações Democráticas falham justamente nesse ponto, na fundação. Ela simplesmente não existe. E pior, do ponto de vista filosófico, é incompatível com a Constituição.

Não existe um documento “oficial” com esses princípios, então vou pegar emprestada a lista da WorldBlu, organização que tenta difundir a ideia de Organizações Democráticas pelo mundo. Para os detalhes, vale ler a página deles. Em resumo, os princípios são estes:

  1. Propósito e Visão: normal, qualquer empresa precisa ter isso claro, qual seu core business, e para que ela existe.
  2. Transparência: há controvérsias, nem tudo pode ser aberto, inclusive algumas coisas realmente são legalmente protegidas.
  3. Diálogo + Ouvir: concordo, o conceito é válido, e contra autoritarismo de cima-pra-baixo.
  4. Igualdade + Dignidade: difícil definir, algumas diferenças de tratamento são mais culturais do que mandatórias.
  5. “Accountability”: é difícil de traduzir em português, mas é algo como “Responsabilidade”; nesse conceito é mais sobre melhor definição de quem é responsável por o quê.
  6. Individual + Coletivo: é aqui que o conceito todo começa a desmoronar.
  7. Escolha: implementável, mas dentro de limites.
  8. Integridade: menciona “moralmente” e “eticamente” correto, e isso é um problema.
  9. Descentralização: em vez de centralização, sempre sou a favor disso, mas dentro de limites.
  10. Reflexão + Avaliação: um “toque” de modelo Hansei+Kaizen da Toyota.

Os dois últimos pontos, Descentralização e Reflexão + Auto-Avaliação, são os únicos que eu chamaria de “princípios”. Se você ler os artigos que linkei na introdução, entende melhor por quê.

Meu problema com esses princípios é que eles são retóricos, e por isso não funcionam como princípios. Dizer “tem que ser transparente” é retórica pura. Eu posso afirmar que nunca contei uma mentira, e quem vai me refutar?

O mesmo vale para “diálogo” e “dignidade”: são boas retóricas, mas descrevem conduta. São processo, e não fundação. Não respondem ao princípio de verdade: “Por que eu devo agir dessa forma?”

E isso desemboca na “Integridade”, em fazer o que é moral e eticamente certo. Só que quem define o que é moral e eticamente certo? Sem uma filosofia por trás, fica tudo indefinido e aberto a interpretação, porque não existe um princípio objetivo e sem ambiguidade sustentando a ideia.

Propriedade Privada

Chego finalmente aos pontos “Individual + Coletivo” e “Escolha”, que tratam diretamente de “Democracia”. Esses dois derrubam todos os outros. Democracia e Coletivo são princípios ruins. Qualquer sistema em que a maioria pode esmagar a minoria, e a minoria não tem direitos de propriedade objetivos e definidos, não funciona por definição.

E “direito”, que fique claro, não é qualquer coisa. Coisas como “direito a bônus” ou “direito a mais horas de descanso por semana” esbarram no problema fundamental de qualquer organização: “E quem paga a conta?” Se, para um indivíduo ter um direito, outro precisa trabalhar de graça, isso é escravidão e, por definição, não pode ser um direito. Leia meu artigo sobre Direitos do Homem para entender melhor.

Mais do que isso: “Transparência” como acesso irrestrito a todos os dados, e “Escolha” sobre todos os assuntos relevantes, nunca deveriam ser direitos automáticos dos funcionários.

Vamos à fundação de tudo isso: toda empresa e organização é propriedade privada do dono, dos sócios ou dos acionistas. Ela não pertence aos funcionários, a menos que eles também sejam acionistas, por exemplo via programa de stock options ou algo do tipo.

Funcionários são indivíduos que trocam sua capacidade e suas horas de trabalho, numa negociação voluntária com a empresa, por um valor chamado “salário”. É uma troca justa e voluntária, para mútuo benefício. O direito do funcionário termina onde termina o que está escrito no contrato de trabalho, devidamente assinado. Não há o que “reivindicar”.

Quer mais acesso a informações sigilosas e mais participação nas decisões estratégicas? Mereça. Faça por merecer, não espere que caia no seu colo automaticamente. Mostre bom trabalho, entregue resultado e demonstre capacidade de decidir; só então ganhe o merecimento de fazer parte. Do ponto de vista dos funcionários, o princípio de uma organização sempre deve ser a meritocracia.

Mas e quanto às várias empresas que são “evidências” positivas de que “organizações democráticas” funcionam?

Eis aqui o ponto-chave de todo este artigo: esses cases de Organizações Democráticas não são necessariamente Democráticas. Pelo menos não como as pessoas imaginam que deveria ser.

Na verdade, se você ler meus artigos sobre grupos de animais, caos levando à ordem e auto-organização, isso faz todo sentido dentro de limites. Nenhuma organização precisa controlar até a cor da meia que cada funcionário usa. Isso não é eficiente nem produtivo. Como a equipe trabalha, em que horário, com quais ferramentas e códigos de conduta, é algo que a própria equipe pode decidir.

Só que, para chegar nesse ponto, as metas da empresa já foram definidas: aonde ela quer chegar, o que quer produzir, como quer entrar no mercado, e todo o resto.

O que as equipes vão decidir “democraticamente” é como essa estratégia será implementada. O “alto escalão” continua existindo, a empresa segue pertencendo aos donos, e a estratégia chega pronta. O que fica a cargo dos funcionários é a tática, a implementação.

Esse é o caminho natural das organizações. Se quiser chamar isso de “democrático”, tudo bem. Prefiro não colar rótulo nenhum e tratar como mais um passo evolutivo de “Organizações”.

Deixar a “forma de implementar a estratégia” nas mãos de quem vai implementá-la é só mais um jeito que parece eficiente de tocar um negócio. Não serve necessariamente para todos. E nas empresas tratadas como cases acredito que a gente encontra mais evidência de que elas adotaram meios mais eficientes de produção. O rótulo “democrático” fica grande demais para o que realmente acontece nelas.

É como o Toyota Production System (TPS, ou Lean para nós) da Toyota. Ela não aparece nas listas populares de “organização democrática” e provavelmente nem se encaixa nos princípios da WorldBlu, mas emprega táticas “democráticas”, ou “participativas”, na implementação da produção. Esse é o objetivo real.

E não, também não acho que o termo certo seria “Organizações Republicanas”, só porque falei tanto de República no começo. Não é um nem outro. Organizações são Propriedades Privadas que precisam ser gerenciadas. Em sua fundação, a organização inteira não pode ser “democrática” para funcionários que não são acionistas, por definição.

Uma sociedade anônima até pode ter uma estrutura quase “republicana”. Mas o ponto onde queremos estudar e interferir é o dia a dia gerencial das equipes, e ali temos um “silo” com implementações “participativas” dentro de um invólucro que não é democrático.

O motivo dessa explicação tão longa é simples: se você pensar demais na definição coloquial de “Democracia”, ela logo escorrega para “Coletivismo”, “Populismo”, “Comunismo” e “Socialismo”. Sou absolutamente contra essa linha de evolução, ela é filosoficamente insalubre. No âmbito político, deve parar na “República”. No âmbito dos negócios, é simplesmente “Capitalismo”, sem tirar nem pôr.

E o título “Organizações Democráticas não Funcionam” é, claro, uma provocação. Ele aponta para o fato de que estou me corrigindo quanto ao uso errado de “Democracia”, quando na verdade falamos de “Organizações com Processos Eficientes”, em especial as que crescem organicamente com uma lógica evolucionária-darwinista, como o Lean/TPS.