Um Desabafo, parte II

19 de junho de 2007 · 💬 Participe da Discussão
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2006 08 28 Robber

“Consultor é como puta: recebe por hora, faz o que o cliente quer, na hora que quer e quem leva a grana é o cafetão.”

Sim, eu sou consultor. E tem um conselho que eu gosto de dar: mantenham dois olhos à frente e um atrás. Quem acompanha este blog sabe que passei 5 anos na mesma consultoria. É tempo demais. Mais uma coisa para lembrar: não fiquem mais de 3 anos no mesmo lugar, principalmente se tiverem menos de 30 anos.

Em 10 anos mudei de empresa umas 5 vezes e, de dentro da consultoria, pulei por vários clientes. É estressante, concordo, mas vale a pena. Se você estiver aberto a aprender, vai tirar boas lições para o futuro.

Consultorias são particularmente mais perigosas, principalmente as pequenas, mais ainda se forem como a minha ex-contratante. Um dos motivos que me levaram a sair (foram vários) foram os atrasos de salário. Opa, salário não, pagamento.

Lembrem: trabalhando como pessoa jurídica, o relacionamento deixa de ser entre patrão e funcionário e vira cliente e fornecedor. Você presta um serviço, emite nota fiscal e fatura o pagamento.

Em 2004 já tínhamos passado por uma crise parecida. E olha que consultoria é um negócio que praticamente não perde dinheiro. Eles te contratam a R$ 50 por hora e te vendem ao cliente por até R$ 100. São markups de até 100%. Já vi peão que recebe menos de R$ 40 por hora sendo vendido a R$ 250.

Para o consultor, a consultoria funciona como um seguro: você terceiriza a ela o trabalho de lidar com clientes, caçar projetos e cuidar das alocações. É como um plano de saúde: você paga uma mensalidade e, em troca, eles têm a obrigação de te manter estável, pagando em dia e te alocando em bons projetos.

Fazendo a lição de casa, a consultoria sempre tem boa reserva e o fluxo de caixa é simples. É um negócio da China. Principalmente num mundo como o da SAP, onde os consultores têm taxas artificialmente elevadas graças à limitação e ao custo pornográfico da formação de consultores, de baixíssima qualidade, diga-se de passagem. O cliente paga caro por serviço ruim e não reclama: é o cenário ideal.

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Quando uma consultoria dá sinais de problema financeiro, é o sinal vermelho: pule fora o quanto antes, sem pensar duas vezes. Se o cliente dá chilique, atrasa a fatura ou enrola, isso é problema da consultoria. É exatamente para isso que pagamos esse seguro: para que ela se coloque entre o cliente e você. O consultor que trabalha corretamente as horas apontadas tem o direito de receber nas datas do contrato.

“Combinado não sai caro.”

Quando isso não acontece, é sinal de falta de tato administrativo e de extremo desrespeito com o consultor, que é a verdadeira mão de obra da empresa. No fundo, é burrice: atirar no próprio pé. A consultoria não passa de um aparelho burocrático cuja única obrigação é se administrar.

A desculpa do “estamos investindo pesado para o futuro da empresa” não cola. Sacrificar a folha de pagamento é gasto burro. Não se compromete o básico. Você deixaria de pagar a conta de luz de casa para comprar um computador? Acho que não, porque a luz vai ser cortada e aí o computador não serve para nada.

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O fato curioso, em que vejo muita gente cair, é acreditar. Quando somos novos, às vezes achamos que encontramos o próximo Steve Jobs: o visionário que faz tudo fora dos padrões e vai mudar o mundo. CUIDADO. É como o golpe do vigário: só existiu um Steve Jobs nos últimos 30 anos. A estatística é clara: a chance maior é ele ser só um deslumbrado narcisista.

E você vai acabar trabalhando de graça para ele, se esforçando por ele, sacrificando sua vida pessoal. Para nada.

Repito o aviso: de políticos a golpistas baratos, todos têm excelentes discursos. Falatório envolvente, do tipo que quase te convence a baixar as calças, trabalhar de graça e se sacrificar à toa. Lembra do relacionamento “cliente e fornecedor”? Por mais “querido” que você se ache, como consultor você é um recurso: um terceirizado e, por definição, substituível.

Não há problema nenhum nisso, contanto que você se coloque nessa posição. Você NÃO é sócio da empresa, e a sorte da consultoria não está nas suas mãos, por mais que a gente queira acreditar. Quando a corda apertar no pescoço, quem fica descoberto é você.

Isso não é licença para corpo mole. Faça o máximo, mas faça por você. Encare as noites de trabalho como investimento no seu próprio aprendizado, que por acaso também ajuda a empresa.

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Já contei isso para algumas pessoas, mas repito. Eu queria ter dado entrada num apartamento no ano passado. Como não confiava na saúde da consultoria, não dei. Também troquei de carro no ano passado e poderia ter pago à vista. Depois de uma hora de contas (aprendam a usar a HP-12C!), decidi financiar.

Tudo isso deu resultado: mantive minha liquidez. E foi essa liquidez que sustentou a decisão que tomei no mês passado: abandonar o barco furado.

Por sorte, a Surgeworks cruzou meu caminho na mesma época. Mas eu não estava contando com isso. Sempre considere o pior cenário: ficar desempregado por vários meses. Você precisa de reservas com boa liquidez para esses momentos.

Também dá para minimizar o pior cenário. É aí que meus artigos anteriores sobre ser autodidata, investir no aprendizado e nos contatos fazem sentido: eu considerei que poderia ficar desempregado, mas recebi várias boas ofertas no mesmo dia, e até hoje consultorias ligam perguntando. Mantenha seu leque aberto, tanto de conhecimento quanto financeiro, para não precisar aceitar esmola de ninguém. Fazendo isso, dificilmente você terá problemas.

É um aviso importante. Já vi cenários feios e isso me deixou muito prudente. Nunca dar um passo maior que as pernas, nunca depender de ninguém. Nunca deixe ninguém “cuidar” de você: seja dono e conhecedor das suas próprias contas, orçamentos e impostos.

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Mesmo que você seja empregado de uma empresa que comece a mostrar esses sintomas, prepare sua saída. Deixem de ser deslumbrados, não se endividem em grandes valores sem precisar. E o principal: não se deixem levar por discursos. Quando a situação está boa, você é “bem considerado”, te tratam bem e às vezes rola até um aumentozinho ou uma lambuja.

Mesmo assim, você estará trabalhando por menos do que merece. E quando a situação ficar feia, vão te chamar para “ajudar”, mesmo sem receber, mesmo sacrificando sua vida pessoal de novo.

Se você escolher sair, toda aquela “consideração” vai por água abaixo: você vira o traíra, o cara que deixou na mão quando mais precisavam, blá blá blá. Não se intimidem. Se a empresa vai mal, a culpa não é sua: foi ela quem quebrou o elo de confiança primeiro.

No meu caso, em 5 anos nunca onerei a empresa nem tirando férias. No ano passado trabalhei pesado, sábados seguidos, sem feriados. No dia em que anunciei minha saída, qual foi a primeira coisa que ouvi? “Você sabe que existe a multa de rescisão.” Aí a “consideração” foi pelo ralo, o discurso pomposo de outrora some e a verdade aparece nua e crua. É quando caem as máscaras.

Não me surpreendeu nem me frustrou, porque eu sigo o que digo: considero os piores cenários. E eles acontecem. Grande novidade. Mais uma página virada.

Saí com mais de um mês e meio de pagamentos atrasados. Mando e-mails de cobrança e sabe o que ouço? “Te pago R$ 1.000 por mês, a partir do fim de julho.” Impressionante até onde uma empresa consegue chegar. Me sinto quase tirando esmola da mão de mendigo. Fazer o quê? Melhor quase nada do que nada. Só quero o que é meu, e essa é outra coisa para lembrar: o que te pertence, você cobra.

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Cinco anos entregando todos os projetos com sucesso, deixando todos os clientes satisfeitos, varando noites, trabalhando feriados, sem visitar os parentes nos fins de semana, sem levar a esposa para viajar nos últimos 4 anos, sem ir nem ao enterro do avô. No fim das contas, é assim que um “recurso” é tratado: como mais um “recurso”.

Use as consultorias como elas te usam. Elas ainda são “portas de entrada” para vários clientes, principalmente os de bom nome, que normalmente são retrógrados, cabideiros e altamente ineficientes. Mas nomes assim contam pontos no currículo, e todo mundo precisa sofrer em empresa ineficiente para aprender como não fazer.

Faça um bom trabalho. Cresça. Aprenda. Mas tome muito cuidado: vigarice é uma constante nesse mercado.