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[Off-Topic] O Culto da Moral Cinzenta
on September 08, 2009

Estou lendo o excelente livro The Virtue of Selfishness de Ayn Rand, publicado pela primeira vez em 1961 – se não me engano. E, antes que comece as menções sarcásticas sobre a palavra ‘egoísmo’, remeto à introdução do livro:
De uso popular, a palavra “egoísmo” é um sinônimo do mal; a imagem que ele conjura é de um brutamontes assassino que salta sobre pilhas de corpos para atingir seus próprios fins, que não se importa com nenhum ser vivo e persegue nada mas a gratificação dos impulsos impensados de qualquer momento imediato.
Porém, o significado exato e definição de dicionário da palavra “egoísmo” é: preocupado com seus próprios interesses.
Esse conceito não inclui avaliação moral; ele não nos diz se se preocupar com seus próprios interesses é bom ou mau; nem nos diz o que constitui os reais interesses do homem. É a tarefa da ética responder essas questões.
A ética do altruísmo criou a imagem do bruto, como sua resposta, de forma a fazer os homens aceitar dois princípios inhumanos: (a) que qualquer preocupação com seus próprios interesses é mal, seja lá quais sejam esses interesses, e (b) que as atividades dos brutos são de fato para seus próprios interesses (o qual o altruísmo encoraja o homem a renunciar pelo seu próprio bem e a de seus vizinhos).
Isso dito, não recomendo a leitura do livro, pois ela lida justamente com a quebra dos conceitos conhecidos como “senso comum” atualmente, coisa que a maioria das pessoas simplesmente não tem vontade de mudar :-D Mas falando sério, se você gosta de pensar, esta coletânea é muito interessante.
Só para dar um gosto – se você tiver mente aberta -, coloco vários trechos do capítulo 9, O Culto da Moral Cinzenta.
O Culto da Moral Cinzenta
Um dos sintomas mais eloquentes da moral falida da cultura atual, é uma certa atitude modista em questões de assuntos morais, melhor resumido como: “Não existem preto e branco, apenas cinza.” Isso é afirmado em relação a pessoas, ações, princípios de conduta e moralidade em geral. “Preto e Branco”, nesse contexto, significa “bem e mal”. (A ordem reversa usada nessa frase é psicologicamente interessante).
Em qualquer respeito que alguém se preocupa em examinar, essa noção é cheia de contradições (e no topo delas está a falácia do “conceito roubado”). Se não existe preto e branco, não pode existir cinza – já que cinza é meramente uma mistura dos dois.
Antes que alguém consiga identificar qualquer coisa como “cinza”, ela tem que saber o que é preto e o que é branco. No campo da moralidade, isso significa que é necessário primeiro identificar o que é bem e o que é mal. E quando um homem sabe com certeza que uma alternativa é boa e a outra é má, ele não tem justificativa para escolher pela mistura. Não pode haver justificativa em escolher qualquer parte do que ele já sabe que é do mal. Em moralidade, “preto” é predominantemente o resultado de fazer de conta que se é meramente “cinza”.
…
Se, num assunto complexo de moral, um homem tem dificuldades em determinar o que é certo, e falha ou faz um erro honesto, ele não pode ser colocado como “cinza”; moralmente, ele é “branco”. Erros de conhecimento não são brechas morais; nenhum código moral decente pode exigir infalabilidade ou omnisciência.
Mas se, para escapar da responsabilidade do julgamento moral, um homem fecha seus olhos e sua mente, se ele se esquiva dos fatos do problema e se esforça para não saber, ele não pode ser colocado como “cinza”; moralmente, ele é tão “preto” como se deve ser.
Muitas formas de confusão, incerteza e preguiça epistemológica ajudam a obscurecer as contradições e a esconder o significado real da doutrina da moral cinzenta.
Algumas pessoas acreditam que é meramente uma repetição de coisas como “Ninguém é perfeito nesse mundo”, isto é, todos são uma mistura de bem e mal e, portanto, moralmente “cinzas”. Já que a maioria se vê nessa descrição, as pessoas aceitam isso como algum tipo de fato natural, sem pensar muito mais a respeito. Eles esquecem que moralidade lida somente com assuntos abertos à escolha do homem (isto é, à sua liberdade-de-escolha) e, portanto, nenhuma generalização estatística é válida nesse assunto.
Se o homem é “cinza” por natureza, nenhum conceito moral é aplicável a ele, incluindo “cinzento”, e algo como moralidade não é possível. Mas se o homem tem liberdade-de-escolha, então o fato que 10 (ou 10 milhões) de homens escolheram de forma errada não significa que o décimo-primeiro também o fará; isso não torna necessário – e não prova nada – em relação a qualquer indivíduo.
…
Uma noção similar, envolvendo erros similares, é dito por algumas pessoas que acreditam que a doutrina da moralidade cinzenta é meramente a repetição da proposição: “Existem sempre dois lados para a mesma história.”, o que eles querem dizer é que ninguém está totalmente certo ou totalmente errado. Mas não é isso que essa proposição significa ou quer dizer. Isso não significa que os clamores de ambos os lados serão necessariamente igualmente válidas, nem mesmo que existirá uma pequena parcela de justiça em ambos os lados. Mais frequentemente, a justiça ficará de um dos lados, e premissa desqualificada (ou pior) do outro.
Existem, claro, problemas complexos onde ambos os lados estão certos em algumas partes e erradas em outras – e é aqui que o esquema de pronunciar ambos os lados como “cinza” é menos permitível. É nesse tipo de problema que a precisão rigorosa do julgamento moral é necessário para identificar e avaliar os vários aspectos – que pode ser feito apenas desmontando os elementos misturados de “preto” e “branco”.
O erro básico em todas essas várias confusões é a mesma: ele consiste de esquecer que moralidade lida somente com assuntos abertos à escolha dos homens – o que significa: esquecer a diferença entre “não conseguir” e “não querer”. Isso permite às pessoas traduzir a frase-feita “Não existem preto e branco” em: “Os homens não conseguem ser totalmente bons ou maus” – o que eles aceitam, em obscura resignação, sem questionar as contradições metafísicas que isso trás.
Mas não muitas pessoas aceitariam isso, se essa frase-feita fosse traduzida no significado real em que ela foi intencionada para adentrar em suas mentes: “Os homens não querem ser totalmente bons ou maus.”
A primeira coisa que alguém diria para quem repetisse a afirmação acima é: “Fale por você mesmo, irmão!” E isso, em efeito, é exatamente o que ele está fazendo na real; conscientemente ou subconscientemente, intencionalmente ou sem querer, quando um homem declara: “Não existem preto e branco”, ele está fazendo uma confissão psicológica e o que ele quer dizer é: “Eu não quero ser totalmente bom – e por favor, não me leve como se eu fosse totalmente mal!”
…
Observe a forma que as pessoas se encontram com essa doutrina: quase nunca é apresentada como algo positivo, como uma teoria ética ou um assunto de discussão; predominantemente, se escuta como algo negativo, como uma rápida objeção ou reprovação, de uma maneira a implicar a culpa de alguém ou quebra de algo absoluto tão óbvio que não precisa de discussão. Em tons que vão de surpresa ao sarcasmo à raiva à indignação para ódio histérico, a doutrina é jogada a você na forma de uma acusação: “Obviamente, você não pensa em termos de preto-e-branco, não é?”
Levado pela confusão, incapacidade de se defender e medo do assunto inteiro de moralidade, a maioria das pessoas rapidamente respondem de forma culpada: “Não, claro que não”, sem qualquer idéia clara da natureza da acusação. Eles não páram para pensar que a acusação está dizendo, na verdade: “Obviamente você não é tão injusto a ponto de discriminar entre bem e mal, não é?” – ou: “Obviamente você não é tão mal de forma a procurar o bem, não é?” – ou: “Obviamente você não é tão imoral a ponto de acreditar em moralidade!”
…
Observe, na política, que o termo extremista se tornou sinônimo de “mal”, sem levar em consideração o conteúdo do assunto (o mal não é sobre o que você é “extremo” a respeito, mas que você é “extremo” – isto é, consistente).
…
Essas são as razões porque – quando alguém lhe perguntar: “Obviamente, você não pensa em termos de preto e branco, não é” – a resposta apropriada (em essência, se não também na forma) deveria ser: “Tenha toda a certeza que sim!”





O autor trata no livro esse povo da "moral cinzenta" do senso comum como "medíocres"...
< palavra “egoísmo” é: preocupado com seus próprios interesses.
Não encontrei essa definição no Houaiss. Segundo o dicionário, o significado de egoísmo é o mesmo daquele que as pessoas normalmente utilizam. Também não encontrei referências a esse significado em inglês, que coincide com o significado em português. A qual dicionário Ayn Rand se refere?
Mas acho que eu entendo o que ela quis dizer. Quando você faz algo para seu próprio interesse, é taxado de malvado, mesmo que a ação seja justa.
O problema de modificar o significado dos termos é que confunde o leitor, ainda mais quando estes formam as premissas argumentativas de todo um discurso. No meu entender, assim como a população desvirtuou o significado de egoísmo e altruísmo, assim também Ayn Rand o fez, para o outro lado.
Uma frase que gosto muito (e que resume bem o conceito do livro): "...o mal é o egoísmo; o bem, a genorosidade; e a justiça é a justiça. O bem e o mal são formas de injustiça!"
Pelo que eu pude entender do trecho que li, o que o "Ayn Rand" diz que é egoísmo, o Gikovate classifica como justiça; mas precisarei ler o livro (e não apenas esses trechos) para ter certeza.
Obrigado por mais uma ótima indicação de leitura Akita! Abraços!
The title of this book may evoke the kind of question that I hear once in a while: “Why do you use the word ‘selfishness’ to denote virtuous qualities of character, when that word antagonizes so many people to whom it does not mean the things you mean?”
To those who ask it, my answer is: “For the reason that makes you afraid of it.”
Ela não aceitava críticas--ao contrário, era muito orgulhoso e admitiu não estar mais "a fim de receber críticas, e sim concordâncias." É bem interessante ler mais sobre a vida pessoal dela, que indica tbm que ela não seguiu a própria filosofia, muitas vezes exigindo que os outros se sacrificassem por ela.
De qualquer forma, acho que qualquer folosofia deve ser juldada pelos próprios méritos e não pelas vidas de seus proponentes. Nesse aspecto, acho o objetivismo interessante e importante que se conheça, mas ultimamente incompleto para uma vida bem-sucedida.
Se quiser conhecer uma filosofia muito mais interessante, recomendo o pragmatismo americano, defendido e explicado pelo William James. Recomendo primeiro que se leia Pragmatism, e depois The Will to Believe. Rand criticou o pragmatismo sem entendê-lo, distorcendo-o bastante em argumentos "straw-man," mas ele tem implicações bem profundos e abrangentes.
Um dilema que se descreve é o seguinte: quando um marido gasta toda sua poupança para salvar sua esposa adoecida, muitos podem pensar "nossa, que sacrifício enorme ele fez". Mas isso não é tecnicamente um sacrifício: para o marido, ficar sem a esposa é infinitamente pior que ficar sem o dinheiro, portanto faz todo sentido gastar os, por exemplo, $200 mil para salvar a esposa.
Agora, se o altruísmo fosse "verdadeiro", e esse dinheiro servisse para salvar 10 outras mulheres quaisquer, também não deveria ser nenhum sacrifício gastar todo seu dinheiro para salvar as 10 mulheres em vez de salvar apenas 1 (a esposa). Mas isso não é verdade, isso se constituiria efetivamente um "sacrifício".
De qualquer forma, essa história é mais longa que isso, por isso ainda recomendo ler o livro inteiro se essa discussão interessa.